segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O Pequeno Príncipe

"On ne voit bien qu'avec le coeur. L'essentiel est invisible pour les yeux."

Dias atrás, um amigo me emprestou o livro "O Pequeno Príncipe". Um clássico da literatura que, até então, não tinha lido. Quando criança, lembro ter começado a lê-lo, mas não me lembro porquê, parei a leitura e nunca mais retomei. Até o livro cair em minhas mãos nos idos dos meus vinte e tantos anos. Não tenho a pretensão de ser miss, a quem já assimilou os fatos. (até mesmo porque se as moças lessem as entrelinhas do livro iriam mesmo muito além da beleza física) Apenas tive a curiosidade de ler este livro publicado na década de 40, mas que até hoje é tido como atual. Dizem que "O Pequeno Príncipe"é uma obra universal, que se encaixa à idade do leitor, e muitas vezes serve de lição ao que se passa em sua vida não importam a época, a idade etc. Fato! Parece que o principezinho e o narrador falavam sempre comigo ou mesmo raciocinavam com a minha cabeça e, porque não, com o meu coração. Criei certa identidade com o personagem. Assim como quem conta a história, também tinha vontade de pegar o pequeno no colo, cuidar dele e tê-lo como alegre companhia sempre. A mim, nenhuma de suas insistentes perguntas cansava. Ao contrário, em diversos momentos fiz meus seus questionamentos.

Assim como o príncipe anda de planeta em planeta, em busca de respostas, descobertas, semelhanças, diferenças, conhecimento, andei e ando eu por tantos lugares no mundo. Talvez nem sempre em busca de respostas, mas em busca de algo que nada mais é do que eu mesma. Ando em busca de algo que idealizei como meu, como eu, no que acredito, no que quero provar e encontrar. Ando pra conhecer o novo, o outro, a vida que há além do meu pequeno planeta, não só o físico mas também o íntimo, o mais profundo da minha existência. E vou andando, e como o pequeno questionando (indagações estas que vão muito além do meu ofício, eu vivo de perguntas, sou jornalista, um ser curioso por natureza e profissão), tentando entender os motivos de tudo que acontece. Mas respostas exatas, números, coisas concretas nem sempre são as respostas esperadas e corretas. De que vale tanta razão, se muitas vezes não se tem a emoção, o sentimento, o humano da existência?

E coisas tão simples de serem respondidas e compreendidas, o ser humano muitas vezes dificulta, oculta, se enrola e nada fica esclarecido. Chorei lendo "O Pequeno Príncipe". Pode parecer bobo dizer isso, mas é verdade. Chorei porque vi no personagem uma sensibilidade tão pura, tão honesta, até mesmo infantil, que existe muito em mim. Porque as pessoas não podem simplesmente expressar o que sentem, sem ser reprimidas, ou ter que pensar o que o outro vai achar, ou ainda sem ser julgado "estranho"ou errado por isso? Porque é tão difícil para pessoas dizerem e ouvirem "eu te amo", aceitar e achar lindo quando alguém lhe diz isso, sem que pareça uma cobrança, um laço muito forte, quando na verdade é algo tão maior que qualquer conceito social ou diferenças entre homens e mulheres? Porque não se pode esperar ansiosamente, vibrar, sorrir, chorar, expressar o que se sente, sem que isso possa parecer o que não é? Porque o ser humano dificulta tanto as coisas, porque perdemos a essência infantil de sentir e ser honesto, a curiosidade nata ao ser? Porque coisas simples, momentos simples, não podem ser importantes e terem seus valores subjetivos, sem que alguém desconfie do seu interesse escondido ou da sua insanidade adquirida?

É, me coloco como o adulto narrador, e vejo que ao longo da vida vamos perdendo a capacidade de olhar além. Não é um simples chapéu, é um elefante dentro de uma cobra. Algo tão óbvio e ao mesmo tempo naturalmente surreal para a criança, mas que alguém maior, mais vivido não compreende, vê um simples chapéu. E assim crescemos, todos vamos sendo condicionados a vermos sempre o chapéu. Ninguém se importa em ver o que realmente aquilo significa, o que sente o outro, o que há por dentro, o que há de essencial, "invisível aos olhos". A gente problematiza onde não há problema, cria uma equação sem solução. Muitas vezes o Pequeno Príncipe parece um eterno romântico, alguém que imagina um mundo ideal, que pouco conhece os seres. Ele é. A raposa, sempre temida também o foi. Do alto de sua "insensibilidade" compartilha com o Príncipe um dos momentos mais lindos do livro. A metáfora com o trigo, a espera feliz, a amizade verdadeira, a responsabilidade de cativar gente.

O final também me deu um aperto no coração... lembrei de quanta gente querida que me ensinou algo, gente com a qual vivi e convivi, gente que tive de deixar, sem olhar para trás, simplesmente seguir. O que não significa que não tenha levado comigo as lembranças os ensinamentos, a saudades e o sentimento que elas despertaram dentro de mim. Quantas nunca mais vi fisicamente, mas assim como o Príncipe ao narrador, continuam presentes em algum modo de agir e sentir. Nem por isso, nem pelo fato de saber que continuaria minha caminhada em busca da resposta do que ainda me questiona, que seguirei meu caminho atrás do que realmente preciso achar, deixei de gostar, se sentir, de me envolver, de sorrir, de chorar, de falar, de amar, de questionar, de tentar entender, de viver. Mesmo já com alguns anos, tento manter viva em mim a criança que questiona coisas que podem parecer óbvias, mas que não se vê tão facilmente, a que expressa o que sente sem pensar no que irão pensar, tento manter vivo o espírito curioso, livre e sensível. Tento manter vivo o Pequeno Príncipe que existe dentro de mim!


3 comentários:

  1. Há tempos atrás, lá pelos meus 9 anos de idade, chorei após assistir uma animação do Pequeno Príncipe... Bem, essa foi a única vez na minha vida que, de fato, chorei assistindo, ouvindo ou lendo quanquer coisa.

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  2. Que lindo amiga! Sabe que a decoração do quartinho de Tomás é do pequeno príncipe? Pois é, Leo que teve a ideia! Voltei a ler quando estava grávida e é mesmo emocionante.
    Uma pena mesmo que muita gente tenha esquecido do pequeno príncipe que há dentro de cada um de nós.
    Vou te mandar as fotos do quartinho do nosso pequeno príncipe :) beijosssssss saudades das nossas conversinhas regadas a finos e tremoços!

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  3. Acabei de ler e estou chorando agora. É como se eu fosse o autor, é como se eu tivesse com o pequeno P. nos braços e o visse partir . É realmente muito emocionante.

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