terça-feira, 9 de agosto de 2011

Saudades d'além mar

Fecho os olhos e ainda vejo em minha frente a ponte toda iluminada, cortando o Douro, imponente, levando da ribeira do Porto ao cais de Gaia. Ainda sinto o sabor do bacalhau a natas servido com vinho verde fresquinho e também o doce do vinho do Porto servido nas caves, que exalam o cheiro encorpado da bebida e da fruta. Ainda ouço o sotaque arrastado, repleto de "s", de palavras emendadas, vejo o colorido das roupas penduradas na janela, o vento frio cortando o rosto, o barulhinho do mar batendo nos infinitos rochedos. É possível sentir em meus pés a água fria do mar, a areia grossa que machuca a sola; observo as andorinhas que sobrevoam a praia, que se amontoam aos bandos quando pousam. Ainda lembro o saculejar do metro, o sinal a cada estação, o sino da igreja tocando a cada hora na esquina de casa. Também posso ouvir o silêncio da minha solidão, ou ainda os risos da região da baixa lotada, os copos de sangria ou vodka preta na mão, o verão fresco que tarda a chegar, as ruas que tardam a encher de gente. O inverno que dói no osso, o frio que dura mais que uma estação, a friagem que sobe pelos pés, a chuva que não cessa, as folhas amarelas forrando as calçadas, as roupas, muitas roupas para encarar a temperatura lá fora. Sinto a canseira nas pernas de descer e subir ladeiras, de andar pela rua do comércio, de cima a baixo, de andar, simplesmente andar, sem rumo, pelo prazer de caminhar, de sentir a brisa no rosto, de viver a cidade, de viver o Porto.

E vivi dez meses, voltei faz um ano, exatamente um ano. É frase feita, batida, mas é verdade, "parece que foi ontem"... ontem que fui, ontem que voltei, e já faz um ano que entrei naquele avião de volta com o peito apertado, trazendo na mala mais que vinho, trazia uma vida. Quando o decolou desatei a chorar, deixava ali, talvez, uma das experiências mais incríveis da minha vida, um momento único. Não me saia da cabeça a frase do poeta português Fernando Pessoa "ó mar salgado, quanto de teu sal / são lágrimas de Portugal". Um pouco das minhas ali ficavam agora. E deixava ali gente querida, momentos, lembranças, saudades. E não só de Porto, não só de Portugal, trazia e deixava tudo isso do mundo! Ah, minha mala companheira, minhas asas nas costas, a sensação plena de viver. O choro ao ver a Torre, a emoção de chegar mais perto da origem do meu sangue, o surrealismo de uma tourada, o choque de estar em um campo de concentração, a energia do coliseu, o teatro real da troca de guarda, a emoção de ver o melhor time de futebol do mundo na atualidade jogar ao vivo, ver times de todo o mundo, os tantos templos do futebol. Nada disso tem preço, nada disso será perdido, está guardado pra sempre no lugar mais seguro do mundo, na minha alma.

Sinto falta de abrir as asas, pegar a mala, o mapa e me jogar em um lugar desconhecido, como se fosse caindo de página em página de um livro de história, a do mundo, das civilizações e a da fantasia, que meu imaginário pudesse criar, idealizar, realizar. Voltar foi como sair de um mundo paralelo, de uma vida a parte, minha, mas uma outra. De quando fui e quando voltei, não me sai da cabeça caravelas lançadas ao mar, rumo a um desconhecido. Senti-me assim ao embarcar, visualizava esta imagem cada vez que sentava na praia, ou me colocava diante do mar. Gente se lançando ao mundo sem saber onde ia chegar, coragem, ousadia, fé e um objetivo. Eu tinha mais rumo e um pouco mais de conhecimento acerca do que me reservava o outro lado do oceano. Mas acho que todo o resto era o mesmo. Não sei quantos voltaram, quantos recolocaram suas caravelas na água de volta pra casa. Na volta, nada de desconhecido, apenas já a mesma sensação de sair de um porto seguro.

Em um ano quanta coisa aconteceu, o quanto conquistei e o quanto andei e ainda ando. Minha vida cigana, meio circense me acompanha. Malas, lugares diferentes, mora ali, mora aqui, se apega a gente, se desapega a gente, vai, segue seu caminho sem olhar para trás, para o que fica, apenas segue incansavelmente atrás do que acredita, do seu sempre lado de lá do Oceano, da sua Índia prometida. Minha mala ainda é minha grande companheira, ainda me dói deixar gente e lugares, mas minha alma viajante acabou se acostumando. Um dia eu volto, volto para todos estes lugares que tem em mim um pedacinho de si. Volto a passeio, para trabalhar, para viver, seja para o que for, certamente volto para matar a saudade que me acompanha desde que regressei. "A saudade é a nossa alma dizendo para onde ela quer voltar" (Ruben Alves). É exatamente isso!