quarta-feira, 11 de agosto de 2010

De volta ao Brasil

O blog parou, enquanto eu corria. Corria dentro do meu mundo, da minha vida em mudança mais uma vez, dentro de um mundo muito particular que me fez sentir totalmente perdida e alheia ao mundo todo. Foram assim meus últimos dias em Portugal. A sensação é mesmo que vivi durante dez meses uma vida paralela a minha e agora retorno àquela que parecia ser a de sempre. É estranho, porque, na verdade, sempre foi minha vida a de lá e a de cá. E agora o cá já é Brasil, o lá é Portugal. Invertidos os locais, voltei! Mas é só mesmo uma sensação, tudo aquilo foi muito real. Porém as sensações demoram a se acertar.

Antes de sair muito choro, muita nostalgia, muita saudades dos amigos que foram a família no exterior, vontade de congelar na memória o cenário eterno da cidade que aprendi a amar, acumulo de coisas, ansiedades. Dar tchau dói, abraçar a amiga em despedida não é fácil, o avião descola (como se diz em português de Portugal) do Porto e com ele vai um coração apertado e feliz, com sentimentos dos mais confusos e opostos. Chorei quando o avião levantou voo puxando minhas raízes daquele solo para que, sejam em breve, replantadas em outro. Mas senti a alma confortada e uma sensação de imensa alegria quando o comandante anunciou o pouso em São Paulo, de volta a outro lugar onde amo, onde também choraria com gente querida, desta vez pelo reencontro. O que faço ao pisar aqui, beijo o chão? Cheguei enfim em casa, e o primeiro funcionário do aeroporto com quem tive contato não me deixa dúvidas. Com um sorriso e simpatia únicos do nosso povo, era a certeza da chegada ao Brasil. Atravessar o portão de desembarque internacional é como sair daquela vida e voltar a outra. É o ponto final de um capítulo da vida e o parágrafo inicial do próximo. Mal sai minha mãe correu ao meu encontro chorando. Colo de mãe é para qualquer ser humano o maior porto seguro que pode haver. Sim, voltei pra casa. Depois o pai, o irmão, a tia, a bandeira alvinegra foi aberta, lágrimas, risos, histórias, seu mundo começa a se revelar novamente. Entrei na casa dos pais e senti que ali é e sempre será um lugar de conforto e acolhimento para mim, independente da razão de ir ou voltar .

Ainda há a sensação de estar perdida. Quando acordei abri os olhos para confirmar onde estava, como se tudo pudesse ter sido um sonho, algo da mente, quem sabe ainda alguma coisa na outra vida. O café que me esperava na cozinha e do qual senti saudades durante os dez meses não podia ser mais esclarecedor: café brasileiro, de coador, feito pela mãe. Hummmm. Abrir as malas é algo que também carrega sensações. Parece que cada roupa ainda vem com o carinho dos abraços, com o cheiro dos lugares, um filme vai passando em sua cabeça a cada coisa tirada dali. Vai ser assim por algum tempo. É como uma readaptação às coisas, aos lugares, às pessoas. Lembrar de lá e de cá, sentir e matar saudades, seguir com minha vida que na verdade é uma só, mas com emoções e vivências das mais diversas.