quinta-feira, 1 de julho de 2010

Hora de fechar as malas


Comecei estes dias a estranha atividade de fazer as malas. Sim, estranha. O caro leitor já parou para pensar o que representa isso para quem está de mudança? Assim como limpar gavetas e armários, fazer malas para se mudar é como fazer uma breve regressão da sua vida. Cada coisa empacotada ou cada coisa jogada fora traz consigo uma história, um significado, um sentido e um sentimento único e íntimo. A primeira mala feita e fechada me fez chorar. Cada roupa de frio, cada casaco colocado ali me remetia a lembranças mil. Se cada objeto pudesse falar, certamente teria tantas ou mais histórias para contar do que eu mesma. O choro foi só na primeira, é o início do processo que mexe tanto com seu âmago, é a largada da partida, é o início do se desfazer das coisas, dos lugares. Foi como se tudo, juntamente comigo, começasse a se despedir da vida que levei durante dez meses em Portugal. Não gosto de despedidas, por isso chorei. Mas ao mesmo tempo também me emocionava por momentos lembrados com carinho, estes também, e mais do que qualquer coisa, vão na mala, em lugar especial, cuidadosamente guardados. Sem dúvida é o que mais pesa (no bom sentido) na bagagem de volta.

A mala estava no fundo do armário desde que aqui cheguei. Foi difícil desarrochá-la daquele canto, cheirava a guardada, imóvel como esteve todo este tempo. Aos poucos os cabides sem nada são pendurados, as gavetas vão ficando vazias e ecoam ao serem fechadas, o armário já tem espaço de sobra, onde antes os sapatos se pisavam, os casacos se abraçavam uns aos outros, e agora, o pouco que ali ficou, já pode se esparramar confortavelmente. Fui guardando o que não será mais usado, separando em um saco o que irá para a doação, jogando fora coisas já velhas, inúteis, que pesarão na mala sem necessidade, estas ficam para trás. Faz parte da limpeza da vida e da mudança. Há o que serve, o que não serve, o que vai, o que fica, o necessário, o desprezível. Nesse processo uma mala quase fechada, outra chegando já à metade da sua capacidade, o apartamento que foi meu cantinho vai se esvaziando de mim, perdendo o pouco da minha essência que coloquei aqui, aos poucos vai se desfazendo da minha vida e minha vida se desfazendo dele. O processo seguiu e segue sem mais dores e lágrimas, sem mais estranheza, naturalmente como deve seguir o enredo. Refazer as malas, sair de um lugar para o outro é, no mínimo, um bom exercício de auto-conhecimento e reflexão sobre a vida e o que se viveu.

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