sábado, 26 de junho de 2010

Sem nenhum lirismo

Brasil x Portugal era o jogo mais aguardado desta primeira fase da Copa. Pelo menos para mim. Desde o sorteio de grupos no início de ano, esperava por ver a partida em território inimigo. Nem tão inimigo assim, mas também, por favor, sem o chavão de países irmãos. A graça era mesmo ser a do contra no meio da maioria, ainda mais por se tratar de futebol. Com o grupo G definido, a discussão e as apostas em Brasil e Portugal tornaram-se mais emocionantes e constantes. O medo luso frente à sempre favorita equipe da ex-colônia era evidente. Num clima de desconfiança os portugueses palpitavam sobre o confronto com o Brasil timidamente, um empate talvez, já seria uma goleada. Assim foi, até os 7 a 0 frente a Coréia do Norte, placar esse que fez com que o povo lusitano sonhasse alto e imaginasse que vencer a canarinho seria possível, e de goleada também. Engraçado, no domingo, antes ainda deste histórico placar português, as pessoas me abordavam na rua e manifestavam apoio total ao Brasil, para que, no jogo final do grupo, pudéssemos ajudá-los. Depois da goleada, o discurso mudou, apostavam placares estratosféricos, recuperaram uma confiança que nem sabiam ter guardada. E foi nesse clima, na expectativa de um grande jogo que fui para a Praça da Liberdade, nos Aliados, centro do Porto, em Portugal. Saí de casa por volta das 2 da tarde. O jogo era as 3 em horário local. Pelas ruas o movimento seguia normalmente. Comércio funcionando, gente, vida correndo. Algumas tevês ligadas em estabelecimentos comerciais, rádios ligados nos carros, mas nada parecia querer parar ou fechar por conta do jogo. Na concentração do telão, o movimento era maior, camisas, bandeiras, obviamente mais portuguesas, mas a colônia brasileira é grande, marcava presença.

O sol estava escaldante. Era um sol tipicamente brasileiro, nem mesmo a brisa fresca portuense dava as caras. Calor, muito calor, para não nos esquecermos da origem. Não sei porque, mas diferentemente dos outros jogos, a minha brasilidade estava mais aguçada. Acho que pela proximidade da torcida adversária, pela farra de gritar por seu país em outro, pela distância, pelo amor à pátria que se descobre maior quando se vive fora, não sei. Fui com a amarelinha, levei minha bandeira brasileira, cantei o hino nacional. Aliás, gosto do hino português, não importa o evento, é sempre cantado com amor. Arrepia-me a estrofe “às armas, às armas / Sobre a terra, sobre o mar/ às armas, às armas/ Pela pátria lutar/ Contra os canhões marchar, marchar”. É o momento em que os lusos mais se exaltam, remete e me faz lembrar do povo conquistador e corajoso de outrora. Mas o fato é que desta vez também gritei o meu. A seleção estava sem dois dos meus “desgostos” nessa equipe: Kaká e Robinho. Menos mal torcer pelo time sem eles que, para mim, não representam nada ao país. Esbocei algumas reações, tentei empurrar a equipe. Enxugava o suor do rosto com a bandeira nacional. Não, não um sinal de desrespeito, era sim o suor brasileiro ali materializado. Pena que os atletas não deram todo este suor pelo Brasil. O jogo brigado que eu esperava não aconteceu. Aliás, brigado foi, foi canelada pra todo lado. Jogo feio, digno de solteiros x casados na empresa no fim do ano. A torcida da casa só se manifestava em resposta aos gritos brasileiros. O modo de verem o jogo é bem mais calmo, bem menos passional. Também acho que ninguém ficou pensando em sermos cumpadres, amigos, irmãos... esquece. Os times em questão não tem mesmo como forte a criação, tampouco a criatividade. Não foi também nada sofrido, ninguém entregou sua alma em campo. Seria até lírico como gostam os portugueses, mas faltou inspiração, emoção. Até o fim do jogo notei que a esperança lusitana era muito maior que a brasileira. Acho mesmo que para eles a vitória era mais significativa, por ganhar dos “favoritos".

O empate ficou de bom tamanho, todos felizes e classificados. Eu, sinceramente, saí frustrada por não ver gols, não ver reações de ambas as torcidas na vitória ou na adversidade. Isso daria à minha experiência e ao relato muito mais graça. Acho até que me faltou inspiração. Na volta pra casa a vida ainda seguia, como se nada tivesse ocorrido. As camisas e bandeiras na rua eram as mesmas que estiveram na praça vendo o jogo. O comércio aberto, carros, gente pra lá e pra cá, era como se a partida ou a Copa não estivessem acontecendo. O clima e os hábitos são mesmo diferentes. Mesmo que aqui o povo também goste de futebol, nunca será como é para o povo brasileiro. Para nós, é uma religião, é um sentimento, uma mobilização diferente. Como bem diz o slogan na camisa da seleção, “Nascido para jogar futebol”. A equipe nacional não tem seguido muito isso, mas segue no Mundial. Já os portugueses passaram para as oitavas animados, e a sensação frente ao próximo adversário é de que após o jogo com os amigos, agora é a vez dos inimigos. Briga Ibérica, eterna, agora dentro das quatro linhas do futebol.

Abaixo, vídeo feito no local do jogo no momento do hino nacional português:

video

Um comentário:

  1. Pois é, parece que só os jogadores é que agiram como "irmãos", ninguém querendo magoar ninguém! Enfim, um jogo sem graça!

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