terça-feira, 1 de junho de 2010

Por que não ir à Africa do Sul?


Ouvi de amigos jornalistas portugueses uma coisa, no mínimo curiosa e que, para minha surpresa, era um discurso de opinião quase unânime: se fosse para escolher, não cobriria a Copa na África do Sul! Intrigada, eu, com um comichão para estar em uma Copa, indaguei aos colegas, principalmente os que vão fazer a cobertura deste mundial: Por que não? As respostas podem variar em forma, mas em conteúdo eram as mesmas e me deixou decepcionada ouvi-la de profissionais que, ao meu ver, devem ser os mais abertos à culturas, gente, raças etc. Claro, muito embora todo ser humano traga consigo sua formação, sua bagagem pessoal e profissional, devemos ser "menos" fechados ao novo, ao desconhecido, ao pouco conhecido, ao outro. O que me disseram foi que ir a África do Sul é uma loucura, uma insegurança total, uma pobreza imensa e é África. Imediatamente lembrei do país-sede do próximo mundial, Brasil, do qual tenho, no mínimo, mais intimidade para falar. Se for por insegurança, diferenças sociais, vocês também não irão nem à Copa de 2014, nem às Olimpíadas de 2016, argumentei. E ouvi como tréplica que o Brasil é diferente, porque é Brasil, não África, África dá medo. Como?

Vamos lá. Mais do que a Pangéia, outras coisas nos separam, mas nos unem aos africanos de um modo geral. Acho mesmo que, a alegria, uma das caraterísticas mais marcantes do brasiliero, conhecida mundialmente, tenha sido herdada dos negros africanos. Mais que isso, assim como eles enfrentamos dificuldades, preconceitos, e mesmo assim lutamos, persistimos, sempre sorrindo. Pela história, pelas mãos do poder, somos igualmente formados por desigualdades sociais muito marcantes, pela pobreza, embora com extrema riqueza natural, e, num desencadear muito mais complexo de todo o quadro socio-econômico, teremos a violência, a insegurança, a miséria humana, a pior de todas. Guardando as devidas proporções, as ainda existentes lutas tribais por sobrevivência de cultura e humana, por que não ir à África? Ainda esta discussão cansativa de negros x brancos? Não, colocam mesmo a culpa de tudo na pobreza, que causa a insegurança social, o não desenvolvimento do país, das cidades, de tudo um caos. Desculpe lá, para usar uma expressão bem local. Alguém já esteve verdadeiramente no país do Mundial, já viveu isso tudo, conhece a fundo? Não. Nem eu. Portanto é preciso conhecer, ir à Copa, ir ao país, ir como jornalista e como ser humano que se é, entender e viver a realidade, a outra cultura, tentar entender e aceitar o diferente.

Nem sempre a realidade é como imaginamos ou como ouvimos dizer. Sinceramente, pelo que dimensionava eu de morar no exterior muita coisa mudou depois de estar na realidade. Que me desculpem os caros colegas, mas de um olhar crítico e de alguém de fora que está aqui dentro tem quase um ano, Portugal não é o paraíso. O país também tem diferenças sociais bem marcadas, pobreza, atrasos que me fazem sentir verdadeiramente no tempo da Real Coroa. Acho que apenas a insegurança não é tão sentida, mas sempre faço essa ressalva de que, quanto maior a proporção das cidades, do aglomerado de gente, mais as diferenças se intensificam e todo o resto vem como uma avalanche. Sinto dizer, mas se o medo os faz pensar duas vezes antes de ir à África do Sul, repensem também a ida ao Brasil. Ou melhor que isso, revejam conceitos, culturas, realidades e mais, vejam o futebol e o esporte, talvez como ainda um dos pouco fatores capazes de deixar tão próximos povos tão distantes, gente que até as vésperas do Mundial guerriava e em campo pratica o puro fair play. Como jornalistas, faz parte da nossa profissão encarar o mundo como ele se apresenta, suas facetas. Cobrimos a guerra, cobrimos a paz, vamos ao primeiro mundo e também ao sub-mundo ser for preciso.

Então porque não cobrir uma manifestação esportiva tão grandiosa e festiva, algo com representatividade a um povo tão sofrido, que até a década de 90, alguns pouco anos, vivia dividido, oprimido? Deixem o preconceito em casa e embarquem com a alegria africana. Pensem que talvez a maior dificuldade será trabalhar ao som das ensurdecedoras vuvuzelas.

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