quinta-feira, 24 de junho de 2010

Em clima de despedida

Falta pouco mais de um mês para o fim da minha aventura no velho continente. Já? É essa a pergunta simples que me faço sempre. Parece que cheguei ontem, mas já se foram nove meses. A missão a qual me propus está quase cumprida, as aulas acabam em julho, mais um pouco de mundo será explorado e em agosto volto à terra querida que me viu nascer. Até lá, ficarei como estou agora, com sentimentos variados, dúvidas, ansiedades, tudo junto ao mesmo tempo em mim, na minha cabeça, clima de despedida. Não, não é a mesma coisa de quando vim. É o caminho inverso de sensações novas de novo. Quando sai do Brasil, sabia que um dia voltaria, mais cedo ou mais tarde, e tudo estaria lá, gente, coisas, lugares, mesmo com mudanças e imprevistos, era uma idéia de deixar um porto seguro rumo ao desconhecido. Voltar é diferente. É uma sensação de sair de um lugar que não se sabe se um dia volta, em que condições volta, despedir de pessoas como quem despede para nunca mais, não sei se um dia voltarei a vê-las, onde, quando ou como voltarei a ver essa gente toda que por quase um ano foi a gente que fez parte da minha vida. Ir embora daqui é como sair, bater a porta, não olhar pra trás. Tenho o coração feliz pela volta, apertado por ir embora.

Já começo a andar pelas ruas e frequentar lugares como se fosse a última vez, ou talvez uma das últimas que piso ali. Forço minha memória para que guarde tudo com detalhes, cores, cheiros, sensações, gentes, sons. Nada tão vivo e tão marcante quanto o nosso registro íntimo de lembranças e sentimentos. Também já convivo com pessoas com esta mesma sensação, de que talvez seja o último sorriso, a última palavra, o último bom dia, boa tarde, boa noite, o último tchau. Você tenta não se apegar a nada, nem a ninguém. Ao ser que é humano, nem sempre isso é possível. Aliás, nunca o é. Criamos identidades, hábitos, gostos, empatias, amizades, raízes. Essa não é a primeira e talvez não será a última vez em que arranco as minhas para replantar em outro lugar. Gosto dessa sensação, aliás, sinto que de tempos em tempos meu espírito pede algo novo, outra perspectiva, uma renova da expectativa. Assim como foi há nove meses, é chegada a hora deste novo de novo.

Do que quero lembrar, do que quero esquecer, do que quero contar, do que quero guardar, do que quero falar, do que quero calar, do que quero reviver, do que quero não mais passar, do frio, do calor, da companhia, da solidão, do riso, do choro, da dúvida, da certeza, do amor, da dor, do sim, do não, da grandeza, da pequenez, do que fiz, do que omiti, do que quis, do que não quis, do sonho, da realidade, da maturidade, da imaturidade, dos prós e dos contras. Disso tudo vivi, com tudo isso aprendi. Se valeu a pena? Tudo vale a pena, quando a alma não é pequena, já dizia Fernando Pessoa em poema que se refere àqueles que um dia se lançaram ao mar, ao desconhecido, ao novo, à aventura da vida. Assim como eles e assim como o poeta, falarei eu também em saudades de uma boa e rica época de minha vida. Porque, com certeza, valeu a pena para essa minha imensa alma.

4 comentários:

  1. Só tenho uma coisa a dizer:
    brasil
    campinas
    samba
    e caipirinha!!!!!
    to com saudade! vem logoooooooooo!

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  2. ...pois que a vida é feita de experiências, chegadas e partidas, não é mesmo?
    Da minha parte, alegria por sua felicidade e saudades dessa alma vasta.

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  3. Pôxa amiga que texto emocionante! E lá já foram 9 meses, tão rápido!
    Sei bem que sensação é essa, e como sei, imagina depois de 8 anos e meio. Foi mesmo deixar meu 2º porto seguro!
    Roubando uma bela frase que um amigo meu postou no meu blog:
    "Fazemos de conta que somos diferentes das plantas, mas a verdade é que onde pousamos lançamos raízes."
    Boa volta e olha, Portugal também vai tá sempre aí esperando esse dia de voltares para matar saudades!

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  4. Fiquei emocionada com o teu texto Gláucia. Muito bonito mesmo. Mas não me digas que não estás a pensar voltar todos os anos uma semana para matar saudades?
    Quanto a mim logo que tenha dinheiro para te ir ver a São Paulo lá vou eu...

    Beijo da tua sempre amiga

    Cláudia Azevedo

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