terça-feira, 29 de junho de 2010

Após tormenta furiosa, nau lusa retorna da Copa


A caravela portuguesa retorna da África. Mais que o sentimento lírico de tristeza pela desclassificação, vem nesta nau o que senti pelas ruas do Porto após o jogo Portugal x Espanha, um ranço antigo, um amargo pela derrota para um velho conhecido, de lutas pelo poder, por terras, políticas. Os lusos podiam perder para qualquer equipe, menos para a espanhola. Esta vitória significava mais do que seguir na Copa de 2010, era uma questão de honra, de brio nacional. Ao povo, ao menos ao povo, era o que isso significava. Vi poucas lágrimas, as feições eram de decepção e de um desamor ainda mais acirrado, desta vez pelo futebol. Lágrimas significativas foram a do goleiro português Eduardo ao final do jogo. Ele sim sentiu o peso da derrota tal qual o esporte tem. Talvez tenha sido ele uma das maiores figuras desta equipe, passou toda a primeira fase sem levar gols, frente a Espanha evitou uma tragédia maior. E pensar que saiu de Portugal para a Copa questionado, sob desconfiança e caras feias de muitos, da imprensa inclusive. Cala todos, sai aplaudido, mas derrotado e aos prantos. O craque Cristiano Ronaldo mais uma vez não brilhou na seleção. Na zona mista, após o jogo, não quis falar aos jornalistas, pediu que cobrassem do treinador, Carlos Queiroz, explicações. Que covardia, CR, culpar apenas Queiroz! Foi longe com o plantel não lá tão forte que tinha em mãos. Para Portugal, sem muita tradição em seleção podia até ser um conjunto de grandes nomes, alguma raça e doação, mas só. Havia o sonho do título, alguma pouco expectativa ao povo português que, por essência, é derrotista. Fim do sonho, mas como um pesadelo. Perder faz parte do jogo, mas não para o desafeto tão declarado, tão antigo, tão enraizado.

Mais uma vez, frente-a-frente duas nações que representam algo em minha vida: de um lado Espanha, minha descendência, minha dupla nacionalidade, a identidade com a qual vivo por aqui. Do outro Portugal, o país que me acolheu há quase um ano, lugar pelo qual criei um carinho especial. Contra o Brasil o jogo era de "irmãos", contra Espanha era de "inimigos", diziam muitos por aqui. Que me desculpe a terrinha, mas como disse uma querido amigo, é "impossível segurar o apelo que o sangue faz". O meu é bem mais furioso. Torci pela Espanha, muito também pelo seu bom futebol e boa equipe. De novo, fui à praça assistir no meio do povo, sentir o clima da partida. Desta vez pode-se sentir bem melhor, aliás, bem mais tenso. Praça lotada, ruas fechadas por gente. Neste jogo não me decepcionei, em nenhum sentido. A partida em si foi uma das melhores da Copa. Jogo brigado, disputado, a Espanha tocando a bola por música, toques bonitos e redondos. Portugal lutou, tentou criar, se defendeu como pode, ou até onde Eduardo conseguiu. O clima entre os torcedores era amistoso, até a derrota portuguesa estar mais próxima. Logo que cheguei, não propositadamente, parei ao lado de três espanhóis. Da paz, a passeio na cidade, viam a partida de forma pacífica e logo me disseram que o mais importante seria um bom jogo. Integrei-me a eles. Depois surgiram mais dois, e assim tínhamos um grupo do contra, mas com respeito. Ninguém gritava ou provocava ninguém, mas há sempre os ignorantes que não entendem o espírito da coisa, há dois lados, duas torcidas. Antes dos 90 minutos saímos do bolo, evitamos desconfortos desnecessários às famílias e amigos portugueses que todos fizemos ali.

Vim para casa satisfeita com o bom jogo visto, com méritos para a vitória da Fúria, mas também senti pela derrota de Portugal. Se aqui já não havia muito clima de Copa, agora creio que teremos bem menos. Para mim a volta para a casa foi tranquila, de observações e formulando textos em minha cabeça de jornalista. Para os lusos foi cabisbaixa e silenciosa, bandeiras na mão, cachecóis enrolados e não mais no pescoço. Com perdão ao trocadilho, voltaram literalmente furiosos. A Espanha ganhou mais esta batalha peninsular.

sábado, 26 de junho de 2010

Sem nenhum lirismo

Brasil x Portugal era o jogo mais aguardado desta primeira fase da Copa. Pelo menos para mim. Desde o sorteio de grupos no início de ano, esperava por ver a partida em território inimigo. Nem tão inimigo assim, mas também, por favor, sem o chavão de países irmãos. A graça era mesmo ser a do contra no meio da maioria, ainda mais por se tratar de futebol. Com o grupo G definido, a discussão e as apostas em Brasil e Portugal tornaram-se mais emocionantes e constantes. O medo luso frente à sempre favorita equipe da ex-colônia era evidente. Num clima de desconfiança os portugueses palpitavam sobre o confronto com o Brasil timidamente, um empate talvez, já seria uma goleada. Assim foi, até os 7 a 0 frente a Coréia do Norte, placar esse que fez com que o povo lusitano sonhasse alto e imaginasse que vencer a canarinho seria possível, e de goleada também. Engraçado, no domingo, antes ainda deste histórico placar português, as pessoas me abordavam na rua e manifestavam apoio total ao Brasil, para que, no jogo final do grupo, pudéssemos ajudá-los. Depois da goleada, o discurso mudou, apostavam placares estratosféricos, recuperaram uma confiança que nem sabiam ter guardada. E foi nesse clima, na expectativa de um grande jogo que fui para a Praça da Liberdade, nos Aliados, centro do Porto, em Portugal. Saí de casa por volta das 2 da tarde. O jogo era as 3 em horário local. Pelas ruas o movimento seguia normalmente. Comércio funcionando, gente, vida correndo. Algumas tevês ligadas em estabelecimentos comerciais, rádios ligados nos carros, mas nada parecia querer parar ou fechar por conta do jogo. Na concentração do telão, o movimento era maior, camisas, bandeiras, obviamente mais portuguesas, mas a colônia brasileira é grande, marcava presença.

O sol estava escaldante. Era um sol tipicamente brasileiro, nem mesmo a brisa fresca portuense dava as caras. Calor, muito calor, para não nos esquecermos da origem. Não sei porque, mas diferentemente dos outros jogos, a minha brasilidade estava mais aguçada. Acho que pela proximidade da torcida adversária, pela farra de gritar por seu país em outro, pela distância, pelo amor à pátria que se descobre maior quando se vive fora, não sei. Fui com a amarelinha, levei minha bandeira brasileira, cantei o hino nacional. Aliás, gosto do hino português, não importa o evento, é sempre cantado com amor. Arrepia-me a estrofe “às armas, às armas / Sobre a terra, sobre o mar/ às armas, às armas/ Pela pátria lutar/ Contra os canhões marchar, marchar”. É o momento em que os lusos mais se exaltam, remete e me faz lembrar do povo conquistador e corajoso de outrora. Mas o fato é que desta vez também gritei o meu. A seleção estava sem dois dos meus “desgostos” nessa equipe: Kaká e Robinho. Menos mal torcer pelo time sem eles que, para mim, não representam nada ao país. Esbocei algumas reações, tentei empurrar a equipe. Enxugava o suor do rosto com a bandeira nacional. Não, não um sinal de desrespeito, era sim o suor brasileiro ali materializado. Pena que os atletas não deram todo este suor pelo Brasil. O jogo brigado que eu esperava não aconteceu. Aliás, brigado foi, foi canelada pra todo lado. Jogo feio, digno de solteiros x casados na empresa no fim do ano. A torcida da casa só se manifestava em resposta aos gritos brasileiros. O modo de verem o jogo é bem mais calmo, bem menos passional. Também acho que ninguém ficou pensando em sermos cumpadres, amigos, irmãos... esquece. Os times em questão não tem mesmo como forte a criação, tampouco a criatividade. Não foi também nada sofrido, ninguém entregou sua alma em campo. Seria até lírico como gostam os portugueses, mas faltou inspiração, emoção. Até o fim do jogo notei que a esperança lusitana era muito maior que a brasileira. Acho mesmo que para eles a vitória era mais significativa, por ganhar dos “favoritos".

O empate ficou de bom tamanho, todos felizes e classificados. Eu, sinceramente, saí frustrada por não ver gols, não ver reações de ambas as torcidas na vitória ou na adversidade. Isso daria à minha experiência e ao relato muito mais graça. Acho até que me faltou inspiração. Na volta pra casa a vida ainda seguia, como se nada tivesse ocorrido. As camisas e bandeiras na rua eram as mesmas que estiveram na praça vendo o jogo. O comércio aberto, carros, gente pra lá e pra cá, era como se a partida ou a Copa não estivessem acontecendo. O clima e os hábitos são mesmo diferentes. Mesmo que aqui o povo também goste de futebol, nunca será como é para o povo brasileiro. Para nós, é uma religião, é um sentimento, uma mobilização diferente. Como bem diz o slogan na camisa da seleção, “Nascido para jogar futebol”. A equipe nacional não tem seguido muito isso, mas segue no Mundial. Já os portugueses passaram para as oitavas animados, e a sensação frente ao próximo adversário é de que após o jogo com os amigos, agora é a vez dos inimigos. Briga Ibérica, eterna, agora dentro das quatro linhas do futebol.

Abaixo, vídeo feito no local do jogo no momento do hino nacional português:

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Em clima de despedida

Falta pouco mais de um mês para o fim da minha aventura no velho continente. Já? É essa a pergunta simples que me faço sempre. Parece que cheguei ontem, mas já se foram nove meses. A missão a qual me propus está quase cumprida, as aulas acabam em julho, mais um pouco de mundo será explorado e em agosto volto à terra querida que me viu nascer. Até lá, ficarei como estou agora, com sentimentos variados, dúvidas, ansiedades, tudo junto ao mesmo tempo em mim, na minha cabeça, clima de despedida. Não, não é a mesma coisa de quando vim. É o caminho inverso de sensações novas de novo. Quando sai do Brasil, sabia que um dia voltaria, mais cedo ou mais tarde, e tudo estaria lá, gente, coisas, lugares, mesmo com mudanças e imprevistos, era uma idéia de deixar um porto seguro rumo ao desconhecido. Voltar é diferente. É uma sensação de sair de um lugar que não se sabe se um dia volta, em que condições volta, despedir de pessoas como quem despede para nunca mais, não sei se um dia voltarei a vê-las, onde, quando ou como voltarei a ver essa gente toda que por quase um ano foi a gente que fez parte da minha vida. Ir embora daqui é como sair, bater a porta, não olhar pra trás. Tenho o coração feliz pela volta, apertado por ir embora.

Já começo a andar pelas ruas e frequentar lugares como se fosse a última vez, ou talvez uma das últimas que piso ali. Forço minha memória para que guarde tudo com detalhes, cores, cheiros, sensações, gentes, sons. Nada tão vivo e tão marcante quanto o nosso registro íntimo de lembranças e sentimentos. Também já convivo com pessoas com esta mesma sensação, de que talvez seja o último sorriso, a última palavra, o último bom dia, boa tarde, boa noite, o último tchau. Você tenta não se apegar a nada, nem a ninguém. Ao ser que é humano, nem sempre isso é possível. Aliás, nunca o é. Criamos identidades, hábitos, gostos, empatias, amizades, raízes. Essa não é a primeira e talvez não será a última vez em que arranco as minhas para replantar em outro lugar. Gosto dessa sensação, aliás, sinto que de tempos em tempos meu espírito pede algo novo, outra perspectiva, uma renova da expectativa. Assim como foi há nove meses, é chegada a hora deste novo de novo.

Do que quero lembrar, do que quero esquecer, do que quero contar, do que quero guardar, do que quero falar, do que quero calar, do que quero reviver, do que quero não mais passar, do frio, do calor, da companhia, da solidão, do riso, do choro, da dúvida, da certeza, do amor, da dor, do sim, do não, da grandeza, da pequenez, do que fiz, do que omiti, do que quis, do que não quis, do sonho, da realidade, da maturidade, da imaturidade, dos prós e dos contras. Disso tudo vivi, com tudo isso aprendi. Se valeu a pena? Tudo vale a pena, quando a alma não é pequena, já dizia Fernando Pessoa em poema que se refere àqueles que um dia se lançaram ao mar, ao desconhecido, ao novo, à aventura da vida. Assim como eles e assim como o poeta, falarei eu também em saudades de uma boa e rica época de minha vida. Porque, com certeza, valeu a pena para essa minha imensa alma.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Londres em protesto

A região do Big Ben, do Parlamento Inglês, em Londres é muito mais do que uma simples zona turística. Mais que gente andando de um lado para o outro com máquinas fotográficas, comprando lembrancinhas, artistas de rua ganhando seu dinheiro, filas para os monumentos e atrações locais, a área é também palco de manifestações das mais diversas. Talvez pela localização de um prédio de poder do Estado, talvez pela grande circulação de pessoas do mundo todo, seja porque for, o fato é que causas sociais, ambientais, guerra, paz, homem, natureza, tudo em causa, tudo em voga, tudo exposto, tudo questionado naquele espaço. Uma das praças bem ao lado do parlamento abriga um acampamento, barracas com gente revoltada pela Faixa de Gaza, contra o capitalismo, a favor do movimento gay, tudo ao mesmo tempo. Neste mesmo ambiente, nações são representadas por bandeiras fincadas entre faixas e barracas. Claro, a brasileira estava lá.


O protesto mais curioso que vi foi um passeio ciclístico. Não, não era como aqueles em que a comunidade participa apenas pra socializar, gente de capacetes e joelheiras, roupa colada ao corpo ou boné e camiseta de propaganda. Se tratava do "The World Naked Bike Ride", cujo objetivo era protestar contra o uso excessivo de carros, a "dependência" e a "cultura" de veículos automotores. Para isso, os participantes celebravam o uso da bicicleta como meio de transporte e também o culto ao corpo, seu movimento. Assim, todos pedalavam nus, sem roupa, apenas com ornamentos ou corpos pintados com os mais diversos motes. O objetivo de chamar atenção foi atingido, não sei se pela causa, acho que mais pelo meio. O pedal dos peladões fez rir e chocar muita gente por ali. Por alguns instantes as câmeras de viraram do Big Ben para o protesto, no mínimo, curioso. Vale a pena conferir o vídeo. E a quem interessar o site do movimento é este, constava no folheto explicativo que recebi: www.wnbr.org.uk

sexta-feira, 18 de junho de 2010

O orgulho de ser brasileiro


Assisti ao primeiro jogo do Brasil na Copa em Londres, Inglaterra. A cidade pulsava futebol por suas ruas, não apenas simplesmente pelo amor inglês ao esporte, mas também pelos turistas do mundo todo que desfilavam uniformes das mais diversas seleções. Era possível saber o jogo do dia pelas camisas na rua, pelos bares aos gritos na hora das partidas. Clima amistoso e bom de Copa, literalmente do mundo. Mais do que ver o jogo em um ambiente diferente, longe de amigos, familiares e do seu país, encontrar os compatriotas na rua é a festa do dia, bem mais do que vencer, bem mais do que o resultado do jogo, bem mais do que qualquer outra coisa, encontrar a brasileirada, ou mesmo sentir o carinho que outros povos têm pelo seu país é o melhor da história.

Saí com a camisa amarelinha. Não porque pretendia me descabelar pelo jogo, mas era preciso também me juntar à legião de brasileiros, turistas, imigrantes, todos nas ruas de Londres anunciando a partida do dia, anunciando a origem com alegria. Não foi apenas isso. Era como ser uma celebridade em passarelas londrinas. As pessoas te param, perguntam quem joga, perguntaram por Ronaldo, queriam meu palpite, simplesmente diziam gostar do Brasil, ou então mostrar torcida favorável, cumprimentar, coisas assim. Você passa e alguém grita, em sotaque inglês "viva o Brasil", acena com um largo sorriso. Outro já com sotaque mais aportuguesado diz "hoje é Brasil", o rapaz era Angolano, mais que a língua, a simpatia e alegria nos é peculiar. E assim vai, o dia todo alguém mexendo, alguém brincando, os irmãos de pátria se encontrando. É uma sensação incrível para quem já está fora do país a quase um ano, acho mesmo que só nós sabemos o que isso representa de fato. Gente de toda a parte do Brasil, gente imigrante pelos mais diversos motivos, mas que pelos mesmos pretende um dia voltar. Há quem estude, quem esteja casado, quem está a trabalho, quem foi tentar uma vida melhor, mochileiros... brasileiros, é o que todos somos com orgulho. Basta reconhecer a camisa, a bandeira, largos sorrisos se abrem, o papo já flui com naturalidade, um forte abraço de despedida, desejos de sorte fraternal.

Havia bares apenas de torcedores do Brasil, lotados, a entrada já não era possível uma ou meia hora antes da partida. Fui com dois brasileiros, conhecidos ainda no vôo de ida, que como a maioria dos outros com quem encontrei ao longo da viagem se tornaram imediatamente amigos, a um pub, cheio de ingleses. Éramos exceção no lugar, a torcida local era pela Coréia do Norte. Creio que não apenas por torcerem pelos mais fracos, mas por torcerem contra o mais forte, sempre tido como favorito, um adversário temido para o restante da Copa. Mas o clima não era o mesmo. Torcer pelo Brasil se tornou parte de toda aquela brasilidade que passei ao longo do dia. Um sentimento de amor, de amizade, de cumplicidade entre os brasilieros. Uma energia única que nosso povo tem, uma coisa tão nossa, deste povo tão peculiar. Fez um bem danado ouvir o sotaque de novo, sentir o abraço do irmão de pátria, sentir o carinho que o mundo tem pelo Brasil, o respeito pelo nosso futebol, o clima da Copa, e a união que o esporte é capaz de promover. Foi um dia de confirmar o meu orgulho, e o de todos os outros compatriotas, em ser brasileiro.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Os dez mais do Corinthians


Terminei de ler ontem o ótimo livro do jornalista Celso Unzelte, "Os dez mais do Corinthians". A obra reúne dez jogadores que, na opinião de um júri, foram os dez mais marcantes da história corinthiana. Embora estes atletas mereçam estar ali, obviamente seria possível escrever inúmeros livros com outros tantos dez ídolos alvinegros. Como uma breve biografia de cada um, Unzelte relata a passagem destes craques pelo Corinthians, relações com a torcida, com dirigentes, entre companheiros, com o clube em si, enfim, contextualiza os anos vividos por eles no Parque São Jorge. Claro, são sempre as boas e deliciosas histórias de boleiros, aquelas que seria possível ouvir por horas, ou ler páginas incontáveis. Mais que isso, como sempre, emocionar-se com os causos, com os jogos lembrados como se os visse materializado em sua frente. A leitura foi assim, do início ao fim. Emoção maior quando os jogos já tinha vivido eu, lamentação por não ter nascido e visto aquele outro grande momento do passado.

Acabar um livro é como perder uma grande amigo, um companheiro. Por algum tempo você carrega o livro para onde vai, lê no ônibus, no trem, na viagem, na espera, ele está quase sempre na sua bolsa como uma ótima opção para alguns minutos sem atividades no seu dia. Em casa ele fica na criado-mudo, é muitas vezes quem te coloca pra dormir, companhia boa naquela tarde de final de semana chuvosa ou que se quer estar em casa deitado no sofá. Com o fim de mais esta obra não foi diferente. Ficaram as histórias, as recordações, lembranças, aquela vontade de ler mais um pouquinho, a saudade dos personagens cuja vida você participava. Neste caso, eles são dez, de vidas diferentes, mas unidas por um grande clube, uma grande paixão. São, de fato, grandes personagens, que fizeram da história corinthiana ainda maior. Vale muito a pena ler!

Ficou curioso? Ok, os dez caras são: Cláudio, o maior artilheiro alvinegro de todos os tempos; Baltazar, o cabecinha de ouro; Luizinho, o pequeno polegar; Gilmar, grande goleiro; Rivelino, o reizinho do parque; Zé Maria, o super Zé; Wladmir, jogador que mais vestiu a camisa corinthiana e símbolo da Democracia; Sócrates, o Doutor e também grande pesonagem da Democracia Corinthiana; Neto, o eterno xodó da fiel e Marcelinho Carioca, o pé-de-anjo. Só craque!

O livro é parte da coleção ídolos imortais, que conta com obras parecidas de outros clubes do futebol brasileiro.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Qual é a seleção favorita para a Copa?


A Copa do Mundo sempre tem vários favoritos, muitas seleções já chegam com essa alcunha, mas cada um de nós tem o seu palpite. "Qual a seleção vai vencer a Copa?" ou "Qual sua favorita para esse mundial?", são outras perguntas muito comuns às vésperas do início da competição, mais que isso, motivam o bolão entre amigos, apostas variadas. Assim, como no post anterior, resolvi também opinar.

Por favor, sem dizer que é parcial, anti-patriótica ou qualquer coisa assim que já tenham dito ao meu respeito. Sou jornalista, analiso, comento, acompanho futebol mais do que por um gosto pessoal, por profissão. É desse modo esta avaliação. Ou tem o objetivo de ser. Grandes seleções sempre chegam às Copas como favoritas: Brasil, Inglaterra, Itália, Argentina e por aí vai. Mais do que pela fama que a camisa carrega, muitas, de fato, chegam com potencial para levar o caneco. Este ano, aposto em duas, donas de grandes equipes, formadas por craques. Nenhuma delas colocarei como primeira ou segunda favorita, simplesmente vejo como duas potencialidades. Uma delas é a Espanha. Mesmo sem grandes triunfos em Copas, com a fama até de sempre chegar entre as favoritas e não mostrar porque, este ano acredito que a fúria tem tudo para mudar sua história em Mundiais. É, inclusive, uma das seleções sensações pela Europa, campeã do Campeonato Europeu em 2008, é uma das grandes apostas dos especialistas por aqui. Não a toa. A equipe é formada basicamente por atletas de Real Madrid e Barcelona, quando não jogam nos grandes espanhóis, atuam em grandes ingleses. Mais que isso, é uma equipe bem experiente, que joga junto há algum tempo, tem entrosamento e individualmente conta com grandes nomes como Casillas, Xavi, Xabi Alonso, Iniesta, Fábregas, Raúl, Puyol, Fernando Torres, um dos candidatos fortes a goleador da competição, entre outros. Vejo mesmo a Espanha mais como real candidata ao título do que mera "favorita".

A outra seleção é a da Argentina. Que me desculpem os brasileiros, mas é a realidade. Diferentemente da Espanha, os argentinos têm mais história em Copas, são bi-campeões, donos de elencos memoráveis, é a pátria de um dos maiores que o mundo do futebol já viu jogar, Maradona, hoje o desacreditado, e até motivo de piada, treinador desta equipe. Com uma classificação sofrida para a Copa, o time vem como uma grande equipe no papel, mas que em campo não mostrou o talento de tantos craques. Polêmico, o técnico também não tem feito jus ao cargo ocupado. Mas ele tem história, assim como seus comandados tem futebol, merecem todos respeito, muito respeito. Acho que pode ser esse o momento de mostrar o que falta. Alguém imagina uma seleção melhor que essa do meio pra frente? (Talvez uma comparação "tete-a-tete" com a espanhola) Verón será o homem de Maradona em campo, dizem ser função dele instruir os jogadores, organizar em todos os sentidos o jogo, por sua experiência e postura. Se olhar para os lados, verá, simplesmente Mascherano, Dí Maria, um dos responsáveis pelo título português do Benfica, Messi, o melhor do mundo e também grande nome de uma das equipes mais campeãs que o Barcelona já teve, Milito, homem decisivo da equipe campeoníssima da Inter de Milão,Tevez, Maxi Rodríguez, Agüero, o genro de Maradona que fez grande temporada no Atlético de Madrid, campeão da Liga Europa. Acho que a explicação é clara não é? Como não colocar esperança numa equipe como essa? Mesmo que até agora a realidade insista em provar o contrário. Só a postura de Maradona na convocatória já mostra algo diferente: são seis atacantes convocados, eles irão pra cima enquanto outros se defendem e se fecham com volantes.

Estas duas são minhas grandes apostas, mas não nos esqueçamos que sempre há zebras, camisas que pesam, times que amedrontam simplesmente por existirem, como no caso do Brasil, e por aí vai. Há sempre o futebol para quebrar todas as lógicas. Fatores estes ignorados, vou de fúria espanhola e hermanos argentinos. E você, qual seu palpite?

domingo, 6 de junho de 2010

Qual sua Copa inesquecível?


Neste clima de Copa, várias vezes já ouvi a seguinte pergunta "qual sua Copa inesquecível?". Resolvi então opinar também. Desde muito que para mim o Mundial é a paixão por ver futebol, craques do mundo todo em campo, a confraternização com os amigos, o churrasco, a rotina parar para o futebol passar. Assim, sem maiores fanatismos pela seleção ou descabelos, assisto aos jogos pelo prazer de ver o pessoal correndo atrás da bola. Mas claro, a quem gosta de futebol, sempre há lembranças boas guardadas, momentos, há sempre uma boa história para contar. Do alto dos meus vinte e poucos anos, já se foram seis Copas, sete com a desse ano. As lembranças começam com a de 1990, em que minimamente podia eu andar e falar, já com quase cindo anos de vida. Tenho viva em minha memória apenas duas coisas do Mundial da Itália: uma toalha de banho que ganhei, verde e amarela, com uma bola de futebol desenhada e as inscrições "Copa Itália" - "Brasil" e um álbum de figurinhas que meu irmão colecionava e eu o acompanhava a cada cromo colado. Consigo visualizar facilmente estes dois elementos, como se os tivesse aqui comigo. São as lembranças daquele Mundial.

Já o de 1994 foi diferente, e considero que esse foi o meu "inesquecível". Ainda criança, mas já com o gosto pelo futebol e informada, o quanto era possível para uma menininha sobre o assunto, tenho lembranças e imagens eternas daquela Copa na cabeça. Ganhei a camisa da seleção brasileira, aquela clássica com os três escudos da CBF em marca d'água. Antes do início da competição, meu irmão e eu já jogávamos, em um mega drive, uma fita do Word Cup USA 94, com o cachorrinho mascote abrindo o jogo. Passávamos horas ali entretidos com o vídeo game, já no clima da Copa. Para os dias de hoje, aquela fita seria uma peça de museu, mas para a época era uma sensação. Aquele Mundial foi todo visto em família, sempre pais, irmão, primos, tios, avó, o povo sempre reunido na casa de alguém. Vamos às memórias em campo. Primeiro, como não se lembrar do jogador norte-americano Lalas, com sua cabeleira e barba longa ruivos? Visualizou? Era um símbolo da seleção anfitriã, sem dúvida. Depois, uma das lembranças que mais gosto, simplesmente por poder dizer que vi e lembro vivamente de Maradona jogar. Um dos maiores Deuses do futebol, participou daquela Copa de 94, já em fim de carreira, mas era ele, pouco importa. A cena do gol contra a Grécia, em que o craque corre para a câmera com os olhos esbugalhados e aos gritos... marcante. Uma pena a cena na qual sai com a enfermeira para o antidoping que o tiraria do Mundial por uso de remédio para emagrecer. Porém, fico com a memória da primeira, já que antes não me lembro de muitos registros meus, autênticos, sem rever nada gravado, do argentino.

Depois os momentos marcantes da seleção brasileira. Lembro-me de que aquela equipe não chegou aos Estados Unidos com pinta de favorita, embora o Brasil sempre leve consigo essa alcunha. Mas foi, creio eu, uma das últimas equipes com raça, com coração em campo, em que o dinheiro de patrocínios e marcas ainda não tinha tão grande influência em convocatórias. E foi assim, na garra que o Brasil venceu. Os nomes e a escalação daquele time certamente ficaram na cabeça de todos, não havia quem não o rascunhasse, pelo menos. E foi marcante por detalhes, por momentos. Como esquecer de Bebeto embalando o filho a cada gol. Daquelas oitavas-de-final contra os EUA, jogo sofrido, Leonardo expulso com uma cotovelada, gols perdidos, gol de Bebeto que corre para Romário e diz "eu te amo". E aquela quartas-de-final contra a Holanda, grande jogo, de belos gols, 3 x 2. E claro, a final. Assistimos ao jogo em um shopping da cidade, a turma toda da família reunida com muita gente, em um almoço e depois o jogo em um telão. Estava eu, criança, sentada na primeira fila, bem debaixo da tela. Lembro do sentimento de angústia de todos, de medo diante da Itália, aquele 0 x 0 tenso, mais angustiante ainda para quem assiste ao jogo com a narração de Galvão. Pênaltis, mais nervoso.

Antes das cobranças, alguém perto de mim diz "O Taffarel não é bom em pênaltis, já perdemos". Aquela frase me marcou, por um instante me fez sentir a dor da derrota anunciada e mais, pensar "como o goleiro da seleção não é bom, ele deveria ser o melhor?". Começam as cobranças, uma bola desperdiçada para cada lado, cada gol nosso uma explosão. Taffarel pega, enfim, a quarta cobrança italiana, aquela pessoa errou, o goleiro da seleção estava lá, senti alegria por ele, era como se calasse quem duvidou, no fundo sabia que não fazia o menor sentido estar ali em vão. E o final histórico, a maior imagem, Baggio cobra pra fora... é tetra, é tetra, gritava Galvão abraçado a Pelé, com suas gravatas com a bandeira americana, pulavam juntos, uma imagem marcante, mesmo a quem não simpatize com o narrador. Choro do povo emocionado, gente se abraçando, era a primeira vez que via eu o Brasil ser campeão do mundo. Impossível esquecer aquela Copa, os detalhes, os momentos, as sensações.

A de 2002 também foi interessante, uma outra fase da vida, já sabia o que o futebol de fato representava para mim, já acompanhava e entendia com afinco e naturalidade. Mesmo com o "empresarial" mandando no futebol, aquela seleção teve coração, teve Rivaldo maestro no meio, mesmo desacreditado, teve Ronaldo, outro Deus do futebol mostrando porque é o que é no futebol mundial, maior artilheiro das Copas numa demonstração incrível de superação. A grande final contra a Alemanha. Os jogos de madrugada, cafés da manhã ao invés de churrasco com a turma, minha única mancha num exemplar currículo escolar. Coordenava eu o bolão do Mundial no fundo da sala, ao lado da mulecada... no meio da aula. Fomos expulsos da sala por atrapalhar a classe. Minha presença junto a meia dúzia de meninos amenizou a bronca, a diretora da escola apenas nos colocou no pátio para refletir sobre o que fizemos. E assim foi, sacamos nossas tabelas do bolso e continuamos as apostas, em pura reflexão sobre a Copa. Mesmo que essa não tenha sido a mais marcante, há sempre coisas boas para recordar. É o que magicamente provoca o futebol. Sem explicações.

Vale rever o final da Copa de 1994 no vídeo abaixo.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Por que não ir à Africa do Sul?


Ouvi de amigos jornalistas portugueses uma coisa, no mínimo curiosa e que, para minha surpresa, era um discurso de opinião quase unânime: se fosse para escolher, não cobriria a Copa na África do Sul! Intrigada, eu, com um comichão para estar em uma Copa, indaguei aos colegas, principalmente os que vão fazer a cobertura deste mundial: Por que não? As respostas podem variar em forma, mas em conteúdo eram as mesmas e me deixou decepcionada ouvi-la de profissionais que, ao meu ver, devem ser os mais abertos à culturas, gente, raças etc. Claro, muito embora todo ser humano traga consigo sua formação, sua bagagem pessoal e profissional, devemos ser "menos" fechados ao novo, ao desconhecido, ao pouco conhecido, ao outro. O que me disseram foi que ir a África do Sul é uma loucura, uma insegurança total, uma pobreza imensa e é África. Imediatamente lembrei do país-sede do próximo mundial, Brasil, do qual tenho, no mínimo, mais intimidade para falar. Se for por insegurança, diferenças sociais, vocês também não irão nem à Copa de 2014, nem às Olimpíadas de 2016, argumentei. E ouvi como tréplica que o Brasil é diferente, porque é Brasil, não África, África dá medo. Como?

Vamos lá. Mais do que a Pangéia, outras coisas nos separam, mas nos unem aos africanos de um modo geral. Acho mesmo que, a alegria, uma das caraterísticas mais marcantes do brasiliero, conhecida mundialmente, tenha sido herdada dos negros africanos. Mais que isso, assim como eles enfrentamos dificuldades, preconceitos, e mesmo assim lutamos, persistimos, sempre sorrindo. Pela história, pelas mãos do poder, somos igualmente formados por desigualdades sociais muito marcantes, pela pobreza, embora com extrema riqueza natural, e, num desencadear muito mais complexo de todo o quadro socio-econômico, teremos a violência, a insegurança, a miséria humana, a pior de todas. Guardando as devidas proporções, as ainda existentes lutas tribais por sobrevivência de cultura e humana, por que não ir à África? Ainda esta discussão cansativa de negros x brancos? Não, colocam mesmo a culpa de tudo na pobreza, que causa a insegurança social, o não desenvolvimento do país, das cidades, de tudo um caos. Desculpe lá, para usar uma expressão bem local. Alguém já esteve verdadeiramente no país do Mundial, já viveu isso tudo, conhece a fundo? Não. Nem eu. Portanto é preciso conhecer, ir à Copa, ir ao país, ir como jornalista e como ser humano que se é, entender e viver a realidade, a outra cultura, tentar entender e aceitar o diferente.

Nem sempre a realidade é como imaginamos ou como ouvimos dizer. Sinceramente, pelo que dimensionava eu de morar no exterior muita coisa mudou depois de estar na realidade. Que me desculpem os caros colegas, mas de um olhar crítico e de alguém de fora que está aqui dentro tem quase um ano, Portugal não é o paraíso. O país também tem diferenças sociais bem marcadas, pobreza, atrasos que me fazem sentir verdadeiramente no tempo da Real Coroa. Acho que apenas a insegurança não é tão sentida, mas sempre faço essa ressalva de que, quanto maior a proporção das cidades, do aglomerado de gente, mais as diferenças se intensificam e todo o resto vem como uma avalanche. Sinto dizer, mas se o medo os faz pensar duas vezes antes de ir à África do Sul, repensem também a ida ao Brasil. Ou melhor que isso, revejam conceitos, culturas, realidades e mais, vejam o futebol e o esporte, talvez como ainda um dos pouco fatores capazes de deixar tão próximos povos tão distantes, gente que até as vésperas do Mundial guerriava e em campo pratica o puro fair play. Como jornalistas, faz parte da nossa profissão encarar o mundo como ele se apresenta, suas facetas. Cobrimos a guerra, cobrimos a paz, vamos ao primeiro mundo e também ao sub-mundo ser for preciso.

Então porque não cobrir uma manifestação esportiva tão grandiosa e festiva, algo com representatividade a um povo tão sofrido, que até a década de 90, alguns pouco anos, vivia dividido, oprimido? Deixem o preconceito em casa e embarquem com a alegria africana. Pensem que talvez a maior dificuldade será trabalhar ao som das ensurdecedoras vuvuzelas.