sexta-feira, 14 de maio de 2010

A emoção de narrar

A discussão tem sido constante nas aulas da pós graduação de Jornalismo Esportivo. O ato e o fato de narrar uma partida de futebol. Os professores portugueses defendem que o trabalho deve ser feito única e exclusivamente por jornalistas, formados, diplomados, que um dia juraram seguir o código ético e deontológico da profissão. Nunca vi o ofício de narrador assim. Sim, no Brasil também há os jornalistas formados que exercem a função, mas os mais tradicionais narradores brasileiros não precisaram de diploma, nem da alcunha de jornalista para serem geniais no que faziam. Independente de se jurar um código, de ter um diploma, o bom senso e a ética devem ser, antes de qualquer coisa, pertinentes ao ser humano, é algo enraizado ao caráter de cada um. A discussão se deve, principalmente ao fato de a narração esportiva se usar de muita emoção e adjetivação, atitudes estas opostas ao que pede o jornalismo. Porém, como narrar futebol sem gritar, sem emocionar, sem adjetivar? Mesmo descrever o fato em uma matéria de jornal, sabemos que é preciso, muitas vezes, recorrer a palavras específicas da área, a adjetivações que, ao invés de parecerem parcialidade do repórter, descrevem com mais exatidão o lance.

Mais que isso, é preciso entender e perceber as diferenças entre a narração em tv e em rádio. Enquanto a tv dá ao narrador e ao expectador o suporte da imagem, o rádio é um vazio que deve ser preenchido. Como descrever, então, o jogo sem emoções se a pessoa que ouve não o vê e precisa "imaginá-lo"? Não concordo que o uso de jargões, adjetivos e palavras mais verborragicamente ditas sejam um exagero, é uma necessidade. Imagine aquele gol inesquecível, narrado sem emoção, descrito como se fosse um funeral de gente famosa? Não, não é a mesma coisa. E que fique claro que, há uma sensível diferença entre emocionar o ouvinte com a narração e colocar suas emoções ou predileções no fato. Aí sim cabe a discussão ética, pois, como qualquer jornalista, o narrador não deve tomar partido deste ou daquele. Porém, ainda se permite admitir que o ser narrador de futebol é também um ser humano, que se envolve no clima da partida, que tem convicções, origens, história de vida. Não que seja permitido ou aceitável, mas é até compreensível que grite com mais emoção um gol do seu país na final da Copa do Mundo, ou mesmo um gol de título de um clube qualquer, envolto pelo momento do estádio, pela adrenalina do jogo e do próprio ofício.

O fato é que não julgo condição si ne qua non ser jornalista de diploma em punho para o exercício do ofício de narrador de futebol. Claro, aos repórteres de campo e demais envolvidos sim, jornalistas de formação. Imagine se Fiori Gigliotti, José Silvério, Osmar Santos, entre tantos outros geniais narradores do Brasil não tivesse exercido a função. Concordo, eram outros tempos, alguns em que até a profissão nem era regulamentada, mas sendo bem simplista e até exagerando, seria uma perda. Mais que um diploma, para isso é preciso um dom. E também não julgo anti-ético, ou anti-profissional a forma como se faz a narração hoje, no Brasil, diferente da narração de Portugal, seja em rádio ou em tv. Estas diferenças, em muito, são culturais, são hábitos. Nós crescemos ouvindo o radialismo esportivo, e ainda hoje tem força e representatividade no país, mesmo com a chegada da tv. Muito por isso, talvez, considero que toda essa emoção é necessária e não vai contra os princípios do ato. Deve haver sim formas diferentes para cada veículo, mas nunca sem emoção, pois é disso que é feito o futebol.

Abaixo dois gols narrados por Osmar Santos (lamentável o que a vida o reservou). Note como se tornam imagéticas e emblemáticas expressões como "firuliruli firulirula", "capricha garotão", "e que gol", "na boca da butija" etc. Mais que isso, a descrição não só do gol, mas de reações da torcida, dos olhos cheios de lágrima, a alegria do povo. É de arrepiar qualquer torcedor. Sugiro ainda que, feche os olhos e ouça apenas a narração. Mesmo que estas imagens já tenham sido tantas vezes repetidas, já estejam desenhadas e gravadas com vida na memória de todos que acompanham futebol, ouvir apenas o som já basta e as torna ainda mais coloridas pela bela narração.




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