sábado, 17 de abril de 2010

Olé! Olé!


Corrida de touros. É assim que é chamada na Espanha o que conhecemos no Brasil por tourada. Em Madrid, não perdi a oportunidade de ver ao vivo, na praça de touro Ventas esse espetáculo tão tradicional e folclórico da cultura espanhola. Não me agradava a ideia de ver animais sendo mortos, mas é preciso ver e conhecer tudo o que é possível do mundo e da tradição alheia. Fazia um sol escaldante na tarde de domingo. Mais do que curiosos e turistas como eu, as arquibancadas tinham pessoas que têm a corrida de touros como uma paixão, vão à praça como quem vai ao estádio ver seu time de coração. Senti-me emocionada de adentrar àquele local imenso, de esfera e energia tão diferentes e especiais.

Precisamente às 17 horas começa o espetáculo. Um grupo de trompetes e cornetas toca a música típica, característica das touradas, exatamente essa que vem à nossa mente, associada aos touros, à Espanha... fiquei pensando de onde é essa memória sonora, mas sinceramente não encontrei sua origem. Os seis toureiros, tipicamente vestidos e munidos de seus panos em rosa, inicialmente, adentram a arena e se posicionam. Em seguida vem o touro. Corre para o lado de um toureiro, é driblado, corre pra outro, quase o pega. Então é a vez de entrar cavaleiros chamados como "picadores". São estes homens sobre cavalos que com uma lança bem longa ferem o touro inicialmente. Depois os animais são espetados por alguns dos toureiros. Fincam em seu lombo espetos ornamentados. O grand finale fica por conta de um toureiro apenas. Os outros, ficam nas laterais da arena como modo de socorro caso algo dê errado. Agora, já com o tradicional pano vermelho em mãos e uma espada o toureiro em questão dribla o animal e levanta a platéia. Faz parte do show, antes de matar o touro, dar-lhe olés e mais olés. A arquibancanda é um espetáculo a parte. Os espanhóis mais exaltados e envolvidos com a corrida gritam, insultam o toureiro, discutem entre si. Chega a ser engraçado, muito engraçado. Depois de tanto driblar o touro, no momento exato, friamente pensado, o toureiro o enfia a espada... recebe aplausos, gritos, lenços brancos, abre os braços para ser ovacionado pelo público. O touro no chão, se esvaindo em sangue é recolhido e arrastado para fora da arena por um grupo montado a cavalo.

Confesso que quase chorei ao ver o primeiro touro ser morto (no total foram seis corridas, seis animais). É uma cena brutal e forte. Sim, diante destas circunstâncias, uma pessoa leiga e minimamente humana como eu, é inevitável não torcer para o touro na corrida a seguir. Depois, acostuma-se com a brutalidade do ato, entende-se melhor as regras da tourada, envolve-se com a torcida enfurecida a gritar para o toureiro, para o picador, batendo boca com a pessoa sentada ao lado. No final, fica claro apenas como tradições são fortes e resistem ao tempo, às mudanças do mundo e são passadas, invariavelmente, de geração para geração. Para mim, mais que isso, foi conhecer mais um traço folclórico de uma cultura tão rica como a espanhola*.

O vídeo abaixo foi feito neste dia, e mostra o momento em que o toureiro mata o animal que resiste em cair. Chega a ser teatral a cena. Por fim, o toureiro é ovacionado pela platéia que acena lenços brancos, um sinal maior que seu triunfo e reconhecimento.

video

*Embora as touradas sejam sempre associadas à Espanha, elas também são realizadas na França, países da América Latina e em Portugal, país que proibiu a morte do touro nas arenas.

6 comentários:

  1. Gláucia, muito legal e interessante mesmo sua experiência mas confesso que fiquei com uma raiva mortal só em ler o seu texto sobre o "espetáculo" espanhol..ainda não consigo conceber como as pessoas podem se acostumar com essa barbárie. Não consigo compreender como em pleno Sec. XXI persista uma tradição tão brutal em alguns países, uma reminiscência da Idade Média. Aliás, acredito que o "negócio" das Touradas se mantenha por outros motivos sob o manto da tradição e da cultura da "verdadeira arte" da tortura, como o lucro de "lobbistas" e governos nacionais e locais por exemplo! Bom...é só uma opinião e um desabafo rsrs! Gláucia, a maioria do público é composta por turistas ou locais?

    Excelente post!!!

    Bjo

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  2. Gui,
    concordo que é algo brutal e chocante e tbm pensei como algo tão medieval sobreviveu?? mas acredite, a maioria das pessoas que estão lá são locais e, como disse, vão às touradas como quem vai ao futebol... por paixão e para torcer! Houve bate-boca mesmo na arquibancada, xingam o toureiro, insultam é demais! Há famílias com crianças pequenas...ao meu lado tinha um menininho de 3 anos e fiquei conversando com ele e a família, eles vão aos touros td final de semana e o menino sempre vai, é algo cultural passado pelas gerações. E claro, alguém lucra sempre né?! Mas acho q a cultura ainda pesa na manutenção das touradas.
    bjs

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  3. Eu acho que o Toureiro é um frouxo covarde. Só entra depois que os outros covardes arrebentaram o pobre touro, pra dar um golpe final. Tinha que pegar esse toureiro e enfiar espada na lomba dele pra ele ver se ele acha legal!!

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  4. Poxa Gláucia, confesso que achava que a maioria do público era composta por turistas!
    É Kidão, você resumiu o que eu senti mas eu enfiaria a espada em outro lugar...hehehe

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  5. Primaa...

    Morri de dó viu...acho que se eu fosse ver uma tourada tbm choraria...Fora a revolta que senti né...Eu, como veterinária, sempre torcerei para o touro...Olha, é difícil entender o ser humano viu...
    Continuo acompanhando o falando com as paredes....

    bjosss

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  6. Aos que acham a tourada um absurdo, recomendo que façam uma visita a qualquer matadouro no Brasil. Ou vocês acham que aquela suculenta picanha que comem na churrascaria dá em árvore? A diferença dos espanhóis é que eles ritualizam a morte do touro e matam o bicho na frente de todo mundo. Só isso.

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