terça-feira, 23 de março de 2010

A força de persistir

A pauta muda o foco, cai e seu material não é aproveitado. A fonte não te atende, não é possível agendar entrevistas, tampouco produzir jornalismo. Nessas circunstâncias a jovem jornalista, por um momento, desanima e começa a lembrar de quantos conselhos ouviu quando disse que seguiria essa profissão. Uns diziam seja médica, outros advogada ou juíza, tudo ,menos o que realmente a menina sabia que amava desde já. Quando lembra de todos estes comentários, questiona-se ainda, "será? escolhi errado então? só amar não basta mesmo?" e acaba sendo um grande auto-flagelo. Mas em meio disso tudo ainda há a voz que diz "não é nada, acontece e vai acontecer sempre, não desiste, você nasceu para isso, gosta tanto...". É como aquele desenho animado em que o personagem tem ao pé de um ouvido o diabinho e ao pé de outro o anjinho. O primeiro me diz que errei, o segundo que é preciso tentar. São apenas personificações das coisas, não que acredite em um ou em outro, é mesmo a visão de bem e mal, querer e não querer. Claro, minha opção, é pelo que diz do personagem alado.

Porém, ainda com este conflito de ideias e palpites recebo um e-mail. Mais uma vez, um texto do blog foi a motivação. A mensagem era a seguinte:

Boa tarde Gláucia,
criei um website (bem simples) para uma escola muncipal de SP (onde trabalho) e, ao pesquisar significados para a palavra "foca" (tema de nossa página), me deparei com seu emocionante depoimento no blog "falando com as paredes", suas belas palavras que encorajam e dão forças. Sabe, a escola em que trabalho é um CIEJA (centro integrado de educação de jovens e adultos). Uma espécie de supletivo (só que bem modernizado) que fica no bairro de Butantã e atende alunos de "todas" as regiões circunvizinhas. A maioria deles tem um pensar bem parecido com o seu e, outros ainda estão tentando "dar uma volta por cima". Veio a "calhar" o tema da página ser "foca". O motivo desse email é pedir (se não for alterar sua rotina profissional) que você envie uma mensagem para esses tantos alunos que nós atendemos com carinho e dedicação em nossa escola. É só esse o pedido. Parabéns e sucesso na sua carreira.
PS: creio que o site estará no ar a partir do dia 22/03/2010. O endereço é:
www.ciejabutanta.yolasite.com.
Raimundo
Bartho

Não escrevo seguindo técnicas do jornalismo, mas acredito que muitas vezes o que faço aqui pode ser considerado como tal, porque não. E mesmo que não seja, saber que o seu texto, as coisas que escreveu de algum modo emocionam, motivam, tocam, ou "servem" para alguém satisfaz muito. De algum modo, naquele momento, pensei comigo estar cumprindo um dos princípios de minha profissão, cumprindo um dos objetivos do jornalismo que é o de ter um viés social. Sim, escolhi o caminho certo! Prontamente respondi o e-mail a Raimundo, pedindo mais detalhes da escola e o que ele queria exatamente de mim, já que me propus a colaborar como pedido. Ele respondeu-me no dia seguinte com mais detalhes. Segundo sua explicação, o supletivo tem aulas que formam alunos da 1ª à 8ª série do ensino fundamental e atende pessoas oriundas de comunidades carentes, favelas, trabalhadores como empregadas domésticas, lixeiros, subempregados, ex-detentos, ex-assistidos pela febem, entre tantos outros que buscam correr atrás do que ficou perdido na educação e na inserção social. Para que possam seguir com os estudos, mais que o atendimento de pessoal especializado, os alunos têm algumas ajudas de custo com transporte e alimentação. Aos que persistem e chegam ao final do curso, há uma formatura carinhosamente preparada pelos funcionários desta unidade do Cieja.

Enquanto lia a descrição de Raimundo pensava: quem sou eu para dar algum incentivo, conselho, ou coisa que o valha para pessoas como essas, que já são tão fortes, já tiram forças sabe-se lá de onde para não desistir e batalhar por uma melhoria, pelo aprendizado, por algo que os vá ajudar na carreira, na vida, os fará mais felizes? Ao mesmo tempo, também sentia-me com uma boa missão e mais, uma boa lição: desistir perante as dificuldades? Nunca! Estava ali mais do que um reconhecimento do que escrevi, era um reforço ao que eu mesma pensava. Mesmo que desistir nunca tenha passado pela minha cabeça, talvez essa palavra nem faça parte do meu vocabulário, ouvir essa história, foi, na verdade, um incentivo a mim mesma. Pensei então em coisas que me tocam, o que me faz viver, o que não me faz desistir, o que me faz lutar... com as palavras-chaves amor e sonho, do que penso sermos todos feitos e movidos, escrevi a mensagem pedida por Raimundo, que será colocada no site da instituição. Sinceramente, não sei se atingirei o objetivo de incentivar algum deles, mas certamente, mesmo sem saber, eles me fizeram um bem danado e são um grande exemplo!

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