sábado, 6 de março de 2010

De pai para filho

(Imagem retirada do google)

O pequeno Gabriel e seu pai chegaram atrasados ao jogo. Seus lugares estavam vagos, mas o acesso já estava difícil, a arquibancada toda tomada e a bola rolando. O menino devia ter entre 4 e 5 anos de idade, cabelos cortados "tigelinha" e trajava uma jaqueta da Acadêmica de Coimbra, time dono do estádio onde acontecia o amistoso entre Portugal e China. Já tinhamos, talvez, pouco mais de 20 minutos de jogo quando os dois chegaram. Com dificuldades para tomar seus lugares, o pai disse ao miúdo: Vamos ver o jogo aqui do lado, em pé, e no intervalo vamos para nosso lugar. Gabriel sentiu-se incomodado com a situação: "pai quero sentar...". O pai orientou o filho a sentar no concreto que finalizava as arquibancadas, ao final da fila de cadeiras. Contrariado, sentou-se. Prontamente levantei-me e dei minha cadeira a ele e sentei eu no concreto. Pensei comigo "é criança, merece ver o jogo melhor instalado".

Um pouco encabulado o menino sentou-se em minha cadeira, comigo ao lado. Puxei assunto, perguntei seu nome, se gostava de futebol... respondia-me só com a cabeça. Via o jogo com extrema atenção, levantava-se para ver lances de linha de fundo e lateral, chacoalhava a bandeirinha portuguesa em sua mão, erguia os bracinhos com a "ola" feita por toda a torcida pelo estádio. Que lindo!, pensava comigo. Assim como eu, ele também vibra com futebol, seus olhinhos brilhavam atentos, lamentava com um grande sorriso e um olhar para o pai cada gol perdido. De repente me cutuca, "quero ir para onde está meu pai". Minhas pernas atrapalhavam sua saída. Pensei que estivesse se sentindo sozinho ali, sentado ao lado de estranhos. Nada disso. Correu ao pai e perguntou:

- Pai, cadê o Cristiano Ronaldo?
- Está ali, é o camisa 7, está vendo?
Em pé, mas nas pontas do pés, ele respondeu que sim e fez nova indagação:
- E o Bruno Alves, cadê?
- É o número dois.

Eu me ria sozinha. O menino que tinha uns 5 anos assistindo tão atentamente ao jogo, perguntando de jogadores que, talvez, não só pela mídia ficaram em sua cabeça. Fiquei fã daquele menininho tão esperto e entendido de futebol. E aquela cena me fez lembrar de quando eu era criança, talvez um pouco maior que ele, e também ai com meu pai ao estádio de minha cidade. O cenário, os personagens, as realidades eram outras, mas o enredo muito parecido. Tenho flashes vivos de ver no Estádio da Fonte Luminosa, em Araraquara, interior de São Paulo, jogos entre a Ferroviária (equipe local) e Corinthians. Meu pai, ainda nessa época, torcia e gostava demais da "gloriosa"ferrinha. No dia de confrontos com o timão perguntava para mim e meu irmão: "E então, quem ganha?!" Diziamos que podia ser um empate, mas depois, entre nós ,concordávamos que queríamos uma vitória alvinegra, a resposta dada era apenas para que o pai não ficasse chateado conosco. Lembro-me do gosto do amendoim doce, do picolé de limão, das cadeiras grenás de madeira em que sentávamos, de segurar a mão de meu pai entrando no estádio, do ambiente de jogo, de campo, de estádio de futebol, de ver o meu time ali, tão pertinho, com orgulho em tê-lo jogando em minha cidade. Isso é uma coisa que marca profundamente a memória, as emoções de uma criança, principalmente as que seguem pela vida amando futebol.

Fiquei pensando o que passaria pela cabeça do pequeno Gabriel quando maior. Irá se lembrar de ter visto a seleção de seu país em sua cidade, de ver pessoalmente seus ídolos em campo, da atmosfera do jogo, de pegar na mão de seu pai e adentrar em um lugar que parece tão grande a uma criança e tem áurea de sagrado. Certamente coisas assim ficarão com ele como ficaram comigo. É uma atitude linda levar seu filho ao estádio, incentivar ao esporte, ao amor por uma agremiação ou uma nação. Fico feliz em ter estas lembranças, grata por meu pai ter levado a mim e a meu irmão para o futebol, encantada ao ver crianças como Gabriel e seus pais (mães também inclusas em todo este discurso ok?!) no estádio. Se neste momento você já argumenta que no Brasil é difícil, dá medo e coisas assim, até entendo e dou razão, mas encontre uma alternativa. Nem que seja um jogo de menor ou de nenhuma importância, uma pelada do seu time contra o XV de Jaú, não prive seu filho de sentir estas emoções tão marcantes, de ter lembranças tão gostosas, de passar como uma tradição familiar este hábito, esta paixão.

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