terça-feira, 23 de março de 2010

A força de persistir

A pauta muda o foco, cai e seu material não é aproveitado. A fonte não te atende, não é possível agendar entrevistas, tampouco produzir jornalismo. Nessas circunstâncias a jovem jornalista, por um momento, desanima e começa a lembrar de quantos conselhos ouviu quando disse que seguiria essa profissão. Uns diziam seja médica, outros advogada ou juíza, tudo ,menos o que realmente a menina sabia que amava desde já. Quando lembra de todos estes comentários, questiona-se ainda, "será? escolhi errado então? só amar não basta mesmo?" e acaba sendo um grande auto-flagelo. Mas em meio disso tudo ainda há a voz que diz "não é nada, acontece e vai acontecer sempre, não desiste, você nasceu para isso, gosta tanto...". É como aquele desenho animado em que o personagem tem ao pé de um ouvido o diabinho e ao pé de outro o anjinho. O primeiro me diz que errei, o segundo que é preciso tentar. São apenas personificações das coisas, não que acredite em um ou em outro, é mesmo a visão de bem e mal, querer e não querer. Claro, minha opção, é pelo que diz do personagem alado.

Porém, ainda com este conflito de ideias e palpites recebo um e-mail. Mais uma vez, um texto do blog foi a motivação. A mensagem era a seguinte:

Boa tarde Gláucia,
criei um website (bem simples) para uma escola muncipal de SP (onde trabalho) e, ao pesquisar significados para a palavra "foca" (tema de nossa página), me deparei com seu emocionante depoimento no blog "falando com as paredes", suas belas palavras que encorajam e dão forças. Sabe, a escola em que trabalho é um CIEJA (centro integrado de educação de jovens e adultos). Uma espécie de supletivo (só que bem modernizado) que fica no bairro de Butantã e atende alunos de "todas" as regiões circunvizinhas. A maioria deles tem um pensar bem parecido com o seu e, outros ainda estão tentando "dar uma volta por cima". Veio a "calhar" o tema da página ser "foca". O motivo desse email é pedir (se não for alterar sua rotina profissional) que você envie uma mensagem para esses tantos alunos que nós atendemos com carinho e dedicação em nossa escola. É só esse o pedido. Parabéns e sucesso na sua carreira.
PS: creio que o site estará no ar a partir do dia 22/03/2010. O endereço é:
www.ciejabutanta.yolasite.com.
Raimundo
Bartho

Não escrevo seguindo técnicas do jornalismo, mas acredito que muitas vezes o que faço aqui pode ser considerado como tal, porque não. E mesmo que não seja, saber que o seu texto, as coisas que escreveu de algum modo emocionam, motivam, tocam, ou "servem" para alguém satisfaz muito. De algum modo, naquele momento, pensei comigo estar cumprindo um dos princípios de minha profissão, cumprindo um dos objetivos do jornalismo que é o de ter um viés social. Sim, escolhi o caminho certo! Prontamente respondi o e-mail a Raimundo, pedindo mais detalhes da escola e o que ele queria exatamente de mim, já que me propus a colaborar como pedido. Ele respondeu-me no dia seguinte com mais detalhes. Segundo sua explicação, o supletivo tem aulas que formam alunos da 1ª à 8ª série do ensino fundamental e atende pessoas oriundas de comunidades carentes, favelas, trabalhadores como empregadas domésticas, lixeiros, subempregados, ex-detentos, ex-assistidos pela febem, entre tantos outros que buscam correr atrás do que ficou perdido na educação e na inserção social. Para que possam seguir com os estudos, mais que o atendimento de pessoal especializado, os alunos têm algumas ajudas de custo com transporte e alimentação. Aos que persistem e chegam ao final do curso, há uma formatura carinhosamente preparada pelos funcionários desta unidade do Cieja.

Enquanto lia a descrição de Raimundo pensava: quem sou eu para dar algum incentivo, conselho, ou coisa que o valha para pessoas como essas, que já são tão fortes, já tiram forças sabe-se lá de onde para não desistir e batalhar por uma melhoria, pelo aprendizado, por algo que os vá ajudar na carreira, na vida, os fará mais felizes? Ao mesmo tempo, também sentia-me com uma boa missão e mais, uma boa lição: desistir perante as dificuldades? Nunca! Estava ali mais do que um reconhecimento do que escrevi, era um reforço ao que eu mesma pensava. Mesmo que desistir nunca tenha passado pela minha cabeça, talvez essa palavra nem faça parte do meu vocabulário, ouvir essa história, foi, na verdade, um incentivo a mim mesma. Pensei então em coisas que me tocam, o que me faz viver, o que não me faz desistir, o que me faz lutar... com as palavras-chaves amor e sonho, do que penso sermos todos feitos e movidos, escrevi a mensagem pedida por Raimundo, que será colocada no site da instituição. Sinceramente, não sei se atingirei o objetivo de incentivar algum deles, mas certamente, mesmo sem saber, eles me fizeram um bem danado e são um grande exemplo!

sábado, 20 de março de 2010

As cores de todos nós

O vídeo abaixo faz parte da campanha do futebol europeu contra o racismo. E é extremamente criativo e sensível. Com o jogo de palavras e de cores, traz como mensagem principal que todos nós temos ou somos "de cor". Pela igualdade racial, pela igualdade de culturas, pela igualdade entre os seres humanos.

segunda-feira, 15 de março de 2010

De onde vem o calor humano


Dos seis meses e meio aqui, cinco e meio foram de frio. Sim, mais de cinco meses de frio. Aprendi que as estações do ano são quatro, divididas, aproximadamente, em três meses cada ao longo dos 12 meses. Teoria completamente desfeita na prática daqui. No começo tudo é novidade, o frio até então desconhecido, úmido e que dói nos ossos, os casascos (principalmente os de marca que no Brasil custam 3 vezes mais e aqui são vendidos a preço de banana), torce para nevar, temperaturas negativas. Depois acostuma-se com tudo, tudo é normal e cotidiano, rotineiro, portanto, cansativo. Justamente por isso, para que não nos cansemos de sempre a mesma paisagem, o mesmo clima, os mesmo ares é que as quatro estações existem, não é?! Deveria ser. Quem bem me conhece deve estar rindo agora e pensando, "mas ela sempre reclamou de passar calor!'. Exato, é mesmo, mais uma vez defendo a variação da temperatura, igualmente distribuídas ao longo do ano.

Mas o fato é que, nestes meses de frio e mais frio, muita chuva e muito vento fui desenvolvendo pensamentos e "teorias". Chega a ser depressivo viver assim, com frio doído, chuva ininterrupta durante dias, o céu sempre negro e com pouca claridade. Quem se anima a sair cedo da cama assim? Só de colocar a testa pra fora das cobertas já não se quer levantar. É feito por extrema necessidade, aula ou trabalho. Se é preciso sair da toca, lá se vão em seu corpo milhares de casacos, blusas, meias, calças, botas, luvas, gorro... e mesmo assim o corpo não aquece. E ao longo do dia o organismo sofre constantes choques térmicos. Entra em local fechado com aquecimento, tira-se um pouco da roupa. Sai na rua, recoloca tudo, e recebe de frente um vento cortante e frio. Agora dimensione isso tudo a noite ou de madrugada quando normalmente as temperaturas são mais amenas. Sim, gentileza minha esse "amenas". Quem se anima a sair com os amigos, a ir ao bar? Eu defendo que frio em casa, frio em qualquer lugar com os amigos. Mas não é a filosofia mais adotada, todo mundo fica em casa. Não há, portanto, modo de socializar fora dos ambientes burocráticos de trabalho. Inverno chega a ser uma estação solitária, onde todos se trancam em suas casas e lá ficam, esperando a próxima estação chegar. Lembrou-se de algo? Eu me lembro dos ursos, sábios animais que vivem em locais de baixa temperatura. Por isso eles hibernam. Dormem e comem, não saem do abrigo por nada. É o mesmo ânimo que têm os seres humanos no frio.

Pronto, cheguei ao ponto alto da minha filosofia. As condições climáticas e de temperatura influenciam diretamente no modo de ser das sociedades. Quanto mais frio o país, a região, mais fechadas as pessoas são. Claro, não se socializam tanto, são mais reclusos, o humor é diferente. Chega a ser uma questão de costumes, hábitos e cultura até. Sim, tudo isso influenciado pelo meio, ou não sofremos influências externas em nosso comportamento, em nossa formação etc? Sem dúvidas que sim! Nos dias em que faz sol, mesmo com frio, quando acordo e vejo o dia azul pela janela sinto-me mais disposta, mais feliz, com energias e expectativas melhores para a nova jornada. Ah, explicado! Por isso no Brasil ri-se de tudo, ri-se da vida. Temos sol (que aquece mesmo no inverno) e calor constantemente. Como não se dirigir ao happy-hour mais próximo com os amigos após o expediente? Como não sair para caminhar, para simplesmente passear numa tarde quente e de sol? Como não fazer aquele churrasco no final de semana, no domingo de calor escaldante? E com isso tudo muita alegria, falatório, gente, muita gente junta. Acho que em países sul-americanos e latinos também é assim, o calor refletido na atitude das pessoas, os ritmos "calientes" dançados e tocados. Depois disso tudo, entendi a origem e o real significado da palavra "calor humano", que temos de sobra, devido ao calor desumano. Sinto saudades dos dois.

ps: Estes dias estava conversando na internet com meu irmão sobre isso e ele lembrou-se de um bom texto, sucesso na rede, em que uma brasileira descreve sensações parecidas com essas vivendo no Canadá, um pouco mais exageradas e debochadas. Antes de mim, ele fez um post com esta história na íntegra. Confira aqui.

domingo, 14 de março de 2010

"Sou eu ": o tradicional e o novo que dá samba

Diogo Nogueira é um dos grandes nomes da nova geração do samba brasileiro. Já falei dele aqui no blog, mas quando o tema é bom, o assunto não se esgota. O álbum mais recente do artista, "Tô fazendo a minha parte", tem sido um dos mais executados em minha casa. Com algumas composições do próprio Diogo em diferentes parcerias, com músicas inéditas, traz o tradicional, porém novo samba que tem sido produzido no país. Deste disco, em especial, gostaria de destacar duas músicas, uma regravação e uma inédita: a regravação de "Não dá" sucesso do grande sambista Arlindo Cruz, lindamente cantada por Nogueira e a inédita "Sou eu", composição de Ivan Lins e Chico Buarque, só!

Em entrevista recente, Diogo contou que, certo dia, já na fase final de produção do disco, recebeu uma ligação de Chico, que disse:"tenho um samba que quero que você grave!". Imagine o que é para um artista receber uma ligação de Chico Buarque nesse tom! Não deve ser à toa que Buarque tenha presenteado Nogueira com essa música. Mostra o reconhecimento que o jovem sambista já tem (independente de ser filho de quem é, se não fosse bom não estaria nesse nível, certamente). E o samba é a cara do Chico. Basta ouvir e quem ama, quem conhece Chico Buarque nota no ato que aquilo é criação sua. A letra, o estilo, a excelência marcante do gênio. Diogo gravou a bela canção com participação de um dos pais da criança. Que dupla! O que há de melhor e mais tradicional da música brasileira, com o que há de melhor e mais novo dela. Chico e Diogo, em estúdio, cantam "Sou eu", como mostra o vídeo abaixo. Simplesmente lindo.



quarta-feira, 10 de março de 2010

Nós somos o samba

O módulo básico do curso de espanhol está chegando ao fim. Como avaliações finais teremos provas escrita e oral. Bem, a oral já foi feita. A professora deu como opção um bate-papo com ela durante cinco minutos ou uma apresentação para a turma toda, com mesmo tempo e com tema livre, porém algo que fosse um aspecto cultural do mundo hispânico. Conversei com ela que, preferia a apresentação, porém sem moral nenhuma, tampouco conhecimento, para falar da cultura alheia. Amo conhecer culturas, gentes e coisas, mas não me sentiria a vontade de fazer uma pesquisa no google, traduzir palavras, decorá-las e reproduzir como uma papagaio frente à turma. Combinamos então que eu falaria de algo cultural do Brasil, ou algo mais pertinente a mim. Daí passei a semana pensando em que dizer e com preguiça de preparar tudo (acho que já não dou mais conta de tarefas, aulas, estudos, quero tudo mais prático).

Minha primeira ideia foi futebol, meu time, mas depois imaginei que nem todo mundo se interessa por isso e poderia ser chata a apresentação a estas pessoas. Depois pensei em falar sobre São Jorge, já que em uma das lições do curso citou-se uma festa feita ao santo em seu dia, e ninguém conhecia a história, nem a imagem de Jorge. Talvez não chegasse a cinco minutos falando. E enfim, cheguei ao tema, que estava mais à minha vista, ou melhor, aos meus ouvidos do que nunca: Samba! Já disse aqui nesse mesmo blog que o ritmo musical tem sido minha grande companhia. Ouço direto sambas, da melhor qualidade (se é que existe de má qualidade) e nada mais brasileiro para apresentar. Na época de faculdade já havia feito um trabalho sobre isso, sabia um pouco de sua história, de seus gêneros. Refiz a pesquisa, para lembrar e relembrar dados e preparei algo... falar de samba em espanhol? Sim, deu samba! E deu porque não há nada melhor do que falar com o coração. Seja em português, em espanhol, em inglês, em alemão, seja a língua que for, a do sentimento é universal.

Falei bem resumidamente das origens negras dos ritmos e do nome, da mescla de culturas como se formou, de alguns tipos e suas diferenças em cadências, batuques, composição. Claro, não tenho muita propriedade nem autoridade para falar, mas até superficialmente e bem simplificado, foi possível levar um pouquinho do que é samba e do que somos nós, brasileiros ,à turma da classe. O final da apresentação foi o mais adequado: alguém, como sempre, vira para a brasileira e diz " você sabe sambar? samba aí pra gente ver...". Óbvio, não sambei e calmamente expliquei, que não é assim, "samba aí!". Disse a eles que para nós, brasileiros, samba não é apenas um estilo musical, uma simples música regional. Samba é o que somos, é a nossa origem é como fomos formados, é a mistura de raças, de gentes, de culturas que todo brasileiro é. E mais que isso, samba é algo que nos toca a alma, sambamos porque a alma dança e sente o ritmo da música, a força dos seus versos, de seus batuques, não é assim, sambar a seco, sem sentir, sem ouvir. Finalizei dizendo que samba é, de fato, o que somos: a alegria! Mesmo que a letra diga diferente, samba remete à alegria, e nós somos alegres, mesmo que a vida nos diga diferente. Nós, somos o samba!

Os colegas gostaram, a professora também, ninguém conhecia nada do que disse ali. Ainda disse alguns grandes nomes do samba nacional para que procurassem e conhecessem um pouco mais, além do carnaval, o pouco que chega aqui. Se irão pesquisar e conhecer não sei, mas ao menos espero que vejam o samba com outros olhos, assim como a nós e nossa cultura, tão nossa e tão nós.

terça-feira, 9 de março de 2010

Meu texto para análise

Recebi o seguinte comentário, colocado aleatoriamente em um dos textos deste blog:

Que chique!!!!
Um texto seu caiu na prova da Petrobras que fiz no domingo. A prova está em http://www.cesgranrio.org.br/eventos/concursos/petrobras0109/petrobras0109_provas.html Basta selecionar a opção Prova Nível Médio Manhã e baixar o pdf. O gabarito está em http://www.cesgranrio.org.br/eventos/concursos/petrobras0109/pdf/petrobras0109_gabarito.pdf
Foi o texto do radinho de pilha.
Arthur

Achei estranho, já que não fui consultada e tampouco imaginava o alcance das linhas que aqui esboço. Segui o passo-a-passo dito pelo desconhecido Arthur, que fez a referida prova e, curioso, veio conhecer meu espaço. Estava lá, meu post "Radinho de Pilha" servindo de apoio a um exercício de análise da língua portuguesa e interpretação de texto. Claro, é importante ressaltar que foi colocado fonte e autora, tudo na mais honesta e correta norma de publicação de uma "produção literária". Senti-me importante, nem tão só com as paredes falo eu. Algo parecido com textos de Machado de Assis, Graciliano Ramos e grandes nomes da nossa literatura estava sendo feito com um texto meu, uma jovem jornalista, que longe, muito longe de ser o que estes autores citados foram, são e serão sempre. Na mesma prova, meu texto e um fragamento retirado de uma das revistas de maior influência no país. Uma boa surpresa para mim, talvez um reconhecimento, uma importância do que escrevo, até certo ponto, despretenciosamente.

Aos curiosos, segue o link da prova, já direto após os passos citados e seguidos, em que, um dia, meu texto foi base de exercício de português. Que coisa hem?!
http://www.cesgranrio.org.br/eventos/concursos/petrobras0109/pdf/PROVA_NIVEL_MEDIO_MANHA_INSPETOR_SEGURANCA_JR_E_TECNICO_DE_SEGURANCA_JUNIOR.pdf

sábado, 6 de março de 2010

De pai para filho

(Imagem retirada do google)

O pequeno Gabriel e seu pai chegaram atrasados ao jogo. Seus lugares estavam vagos, mas o acesso já estava difícil, a arquibancada toda tomada e a bola rolando. O menino devia ter entre 4 e 5 anos de idade, cabelos cortados "tigelinha" e trajava uma jaqueta da Acadêmica de Coimbra, time dono do estádio onde acontecia o amistoso entre Portugal e China. Já tinhamos, talvez, pouco mais de 20 minutos de jogo quando os dois chegaram. Com dificuldades para tomar seus lugares, o pai disse ao miúdo: Vamos ver o jogo aqui do lado, em pé, e no intervalo vamos para nosso lugar. Gabriel sentiu-se incomodado com a situação: "pai quero sentar...". O pai orientou o filho a sentar no concreto que finalizava as arquibancadas, ao final da fila de cadeiras. Contrariado, sentou-se. Prontamente levantei-me e dei minha cadeira a ele e sentei eu no concreto. Pensei comigo "é criança, merece ver o jogo melhor instalado".

Um pouco encabulado o menino sentou-se em minha cadeira, comigo ao lado. Puxei assunto, perguntei seu nome, se gostava de futebol... respondia-me só com a cabeça. Via o jogo com extrema atenção, levantava-se para ver lances de linha de fundo e lateral, chacoalhava a bandeirinha portuguesa em sua mão, erguia os bracinhos com a "ola" feita por toda a torcida pelo estádio. Que lindo!, pensava comigo. Assim como eu, ele também vibra com futebol, seus olhinhos brilhavam atentos, lamentava com um grande sorriso e um olhar para o pai cada gol perdido. De repente me cutuca, "quero ir para onde está meu pai". Minhas pernas atrapalhavam sua saída. Pensei que estivesse se sentindo sozinho ali, sentado ao lado de estranhos. Nada disso. Correu ao pai e perguntou:

- Pai, cadê o Cristiano Ronaldo?
- Está ali, é o camisa 7, está vendo?
Em pé, mas nas pontas do pés, ele respondeu que sim e fez nova indagação:
- E o Bruno Alves, cadê?
- É o número dois.

Eu me ria sozinha. O menino que tinha uns 5 anos assistindo tão atentamente ao jogo, perguntando de jogadores que, talvez, não só pela mídia ficaram em sua cabeça. Fiquei fã daquele menininho tão esperto e entendido de futebol. E aquela cena me fez lembrar de quando eu era criança, talvez um pouco maior que ele, e também ai com meu pai ao estádio de minha cidade. O cenário, os personagens, as realidades eram outras, mas o enredo muito parecido. Tenho flashes vivos de ver no Estádio da Fonte Luminosa, em Araraquara, interior de São Paulo, jogos entre a Ferroviária (equipe local) e Corinthians. Meu pai, ainda nessa época, torcia e gostava demais da "gloriosa"ferrinha. No dia de confrontos com o timão perguntava para mim e meu irmão: "E então, quem ganha?!" Diziamos que podia ser um empate, mas depois, entre nós ,concordávamos que queríamos uma vitória alvinegra, a resposta dada era apenas para que o pai não ficasse chateado conosco. Lembro-me do gosto do amendoim doce, do picolé de limão, das cadeiras grenás de madeira em que sentávamos, de segurar a mão de meu pai entrando no estádio, do ambiente de jogo, de campo, de estádio de futebol, de ver o meu time ali, tão pertinho, com orgulho em tê-lo jogando em minha cidade. Isso é uma coisa que marca profundamente a memória, as emoções de uma criança, principalmente as que seguem pela vida amando futebol.

Fiquei pensando o que passaria pela cabeça do pequeno Gabriel quando maior. Irá se lembrar de ter visto a seleção de seu país em sua cidade, de ver pessoalmente seus ídolos em campo, da atmosfera do jogo, de pegar na mão de seu pai e adentrar em um lugar que parece tão grande a uma criança e tem áurea de sagrado. Certamente coisas assim ficarão com ele como ficaram comigo. É uma atitude linda levar seu filho ao estádio, incentivar ao esporte, ao amor por uma agremiação ou uma nação. Fico feliz em ter estas lembranças, grata por meu pai ter levado a mim e a meu irmão para o futebol, encantada ao ver crianças como Gabriel e seus pais (mães também inclusas em todo este discurso ok?!) no estádio. Se neste momento você já argumenta que no Brasil é difícil, dá medo e coisas assim, até entendo e dou razão, mas encontre uma alternativa. Nem que seja um jogo de menor ou de nenhuma importância, uma pelada do seu time contra o XV de Jaú, não prive seu filho de sentir estas emoções tão marcantes, de ter lembranças tão gostosas, de passar como uma tradição familiar este hábito, esta paixão.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Pur-tu-gal! Pur-tu-gal!


É assim que grita a torcida, com este sotaque. Já não vou embora daqui sem ter visto a seleção portuguesa em campo. O jogo foi amistoso, "um amigável", na linguagem local, não foi um grande espetáculo de bola, mas valeu por tudo. A patida foi a última da seleção lusitana antes da Copa do Mundo. Portugal x China, no estádio da Acadêmica de Coimbra, a "Briosa" portuguesa. De Porto à Coimbra uma hora de trem ou de ônibus. Portanto, uma chance, talvez, única para mim. E lá fui eu, na minha incansável perseguição ao futebol pelo mundo. Sim, os caros amigos me conhecem, me desloquei até lá simplesmente para ver o jogo. Amor ao futebol!

E adoro esta atmosfera futebolística, os diversos personagens envolvidos. Como o esporte é democrático... gente de todos os lugares, raças, tipos. O pré jogo é o mais engraçado, ver estes tipos folclóricos, conversar com o povão, adoro o povo! Uma brasileira aqui na nossa torcida, com o cachecol de Portugal?? Ela é adversária, deixa o Brasil ver isso! Ouvi várias vezes a brincadeira, com bom humor. Calma gente, terá vaga para as duas seleções, assim como já tenho carinho pelos dois países. Encontrei no meio desse povo todo um trio de amigos fanáticos que correm atrás da seleção portuguesa onde quer que ela vá, todos vestidos com ternos feitos da bandeira nacional. Eis ali alguns poucos que ainda nutrem amor maior pela seleção do seu país do que pelo seu clube.

Com a equipe em campo há dois grandes ídolos: Cristiano Ronaldo e Liedson (brasileiro naturalizado português). Deco, o outro brasileiro naturalizado, lesionado não jogou, acredito que estaria também dentre estes que tiram gritos inflamados do estádio. Claro, o português é a grande estrela, é querido, pega na bola e todo mundo aplaude. A mulherada, em geral, só vai para vê-lo. As quatro que estavam sentadas na minha frente, vaiaram quando a substituição de CR foi anunciada e passaram o segundo tempo inteiro trocando receitas, é verdade! Em breve farei um post sobre isso ele. O brasileiro, por sua vez, também já conquistou o povo português, começou no banco, desagradando a torcida. Quando entrou na segunda etapa foi ovacionado. O jogo foi ruim, terminou 2 a 0 para Portugal que, em alguns momentos foi vaiado. Amistoso é assim, ninguém coloca o pé em dividida ainda mais às vésperas de uma copa. Mais que o jogo, valeu pela atmosfera, por ver o espetáculo montado, os grandes jogadores, o clima. Que na verdade é mais de desconfiança com a seleção local. Ao final da partida, comentários aos montes de que serão goleados pelo Brasil na Copa. Mas calma, sem derrotismo antes do tempo, futebol é e sempre será uma caixinha de surpresas, como diz o outro.

E por falar em Brasil e Portugal, ouvi ontem de Joaquim, um dos amigos que correm atrás da seleção, uma das frases mais bonitas sobre a relação entre os dois países: "Deus fez Portugal e foi de férias para o Brasil, por isso vocês têm um país tão lindo, tão abençoado, de bom futebol, bom samba e gente tão querida, um povo tão especial!". Bonito isso!

terça-feira, 2 de março de 2010

Último desejo

Estes dias tive uma imensa vontade de rever o ótimo filme "Noel - Poeta da Vila" (2007), longa metragem sobre a vida de Noel Rosa, grande sambista e compositor, personagem que dispensa grandes apresentações e rasgações de seda (não porque não as mereça, mas porque exigiria muito espaço). Infelizmente, não consegui encontrar o filme disponível na internet. Porém, é possível ver trechos em que o personagem Noel canta algumas de suas composições, dentre elas, uma canção que é certamente uma de minhas preferidas: linda, poética e que por um motivo tenho guardada comigo. A cena que segue é, também sem dúvidas, uma das mais bonitas do filme, e casa com perfeição com a letra da música "Último desejo".