domingo, 21 de fevereiro de 2010

De encher a mão e de lavar a alma

Rivalidade regional é incomparável mesmo, é um toque especial em qualquer jogo de futebol. O jogo da Champions tem toda a grandeza e o glamour da competição e dos times, mas não tem o toque e o gosto de jogar contra um rival do país. O jogo foi Porto x Braga, equipe da cidade de mesmo nome, ao norte de Portugal, cerca de 50 km do Porto. O time tem também como suas cores o vermelho e branco, e é conhecido como o Arsenal português. O Braga este ano vem bem no campeonato nacional, é líder. O Porto defende o título e precisava da vitória para manter vivas as chances de ser campeão também nessa temporada. Vinha ainda com fatores extra-campo entalados na garganta (vide segunda parte do texto), com protesto ta torcida no início da partida, atletas aquecendo com camisas especiais em homenagem a Hulk e Sapunaru, suspensos. Esse era o clima para o clássico dos times do norte de Portugal.

E o Dragão entrou como devia, comendo a grama, com muita raça. Sapecou logo 5 a 1 no Braga. Confesso que fui curiosa não só por ser um clássico, mas também, e principalmente ,por ver essa equipe do Braga, algo deve ter para liderar o campeonato. Nada de especial, com destaque para o goleiro Eduardo, da seleção portuguesa. Por essa nem ele esperava, passar cinco bolas para suas redes foi demais! O estádio estava lotado, cerca de 47 mil adeptos empurraram o Porto para esta grande vitória. Estava eu, mais uma vez no meio da Super Dragões, a organizada do clube. E desta vez a festa foi muito maior, os gritos muito mais intensos, os pulos, os xingos, a claque* estava mesmo muito mais sul-americana. A rivalidade entre Norte e Sul de Portugal foi ponto comum entre as torcidas do Porto e do Braga. Ambos nortistas, odeiam os sulistas, Benfica e Sporting em especial, com mais intensidade os primeiros. A claque do Porto gritava de um lado, a do Braga respondia do outro, unidas as vozes para aleatoriamente, mas não sem razão, gritar contra os times do Sul. Foi um grande jogo em todos os sentidos! Foi o melhor em ambiente e futebol que vi aqui até agora. O Porto venceu por 5 a 1, mas podia ter sido mais. Ao final da partida uma chuva torrencial para lavar a alma, literalmente.

* Claque em Portugal é a denominação para torcida organizada. O restante dos torcedores são ditos adeptos.

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O São Paulo Português

Depois de quase seis meses em Portugal e acompanhando o futebol do país de perto, é possível ter algumas percepções importantes, saber bastidores, envolver-se. Por aqui, há uma grande "rivalidade" no país entre Sul e Norte, mais intensa entre as duas grandes maiores cidades, lisboa e Porto, respectivamente. Isso é claro em comentários e conversas com gente das mais diversas, oriundas de ambas as regiões. Essa rixa se estende, obviamente, ao futebol. Os grandes rivais são Benfica e Porto, guardadas dimensões, regionalismos e realidades, imagine um Corinthians x Palmeiras. Assim como não uso nada verde, um bom portista odeia vermelho! Mas o fato é que, em dezembro do ano passado, os grandes adversários se enfrentaram pelo Campeonato Português no estádio da Luz, casa do encarnados em Lisboa. Ao final do jogo, confusão entre os atletas nos túneis dos vestiários. Bate-boca, agressões fisicas. Disso tudo, o Porto teve dois atletas suspensos, Hulk e Sapunaro. Após dois meses afastados dos campos, a decisão final para os envolvidos na briga: quatro meses de gancho! Neste momento o leitor deve estar pensando, as e do Benfica, ninguém afastado? Não! Estranho, dá a impressão de que os atletas do Porto brigaram sozinhos e entre si nos túneis. Ontem, no estádio, contaram-me que caso semelhante aconteceu também com o time do Braga em um jogo na Luz. Apenas atletas do vermelho do Norte foram suspensos.

A diretoria portista anunciou que irá recorrer à decisão. Os atletas aqueceram, antes da partida com o Braga, com camisetas brancas com o nome e número dos atletas suspensos. Na última coletiva do clube antes do clássico, o plantel todo compareceu, como sinal de união. A claque do clube, além do protesto de ontem nas arquibancadas, fará amanhã uma manifestação na sede de Porto da Liga de Clubes portuguesa. Não sei se alguma destas coisas surtirá efeito, mas a meu ver, vale fazê-las. Outro modo, mais certo de eficácia é em campo, jogando com raça como o Porto fez. O mundo da bola também segue a mesma toada: alguém sempre é o queridinho da mídia e do poder. Pensei que fosse só com o São Paulo...

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O lirismo melancólico é uma das características culturais mais fortes do português. Seja no fado, seja na literatura, seja no dia-dia. A dor e o sentimentalismo fazem parte da essência portuguesa. Ontem, ainda no Estádio do Dragão, vi uma bela prova disso. A ilha da Madeira está devastada pelas fortes chuvas dos últimos dias: destruição e mortos. Antes da partida, um minuto de silêncio pelas vítimas. Jogadores das duas equipes abraçados no centro do gramado, o público de todo o estádio em pé, aplaudindo, e uma música orquestral de notas tristes tocando. De arrepiar e de levar lágrimas aos olhos a homenagem prestadas às vítimas da Madeira. Assim ficamos, de fato, um minuto, envoltos no mais puro sentimentalismo melancólico português. Bonita homenagem!

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