quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Coisas simples que me fazem falta...


Depois de cinco meses no velho mundo algumas coisas simples começam a fazer falta. E dizem que as coisas mais simples são as melhores da vida, por isso acho que a falta delas está mais acentuada. Que fique bem claro que não se trata de não estar bem aqui ou coisa assim. Ao contrário, estou feliz, mas saudade é recorrente e inevitável. Os meios eletrônicos, as comunicações, tudo isso evoluiu de um modo louco, mas prático e necessário para a vida cotidiana, estes adventos são mesmo indispensáveis. Como era viver em outro país sem telefone, internet, tv a cabo? Cartas apenas... vivia-se, mesmo porque não se conhecia nada disso, então não faziam falta, certo? Errado, devia haver uma inquietude de ausência de algo que não se tinha, nem mesmo se conhecia, tampouco se imaginava que um dia existiria. Grandes invenções que dão a impressão de que o mundo é pequeno, que ele cabe no google, que mascara a saudade e nos dá a fantasiosa impressão de que não estamos sozinhos. Tudo isso não é mentira, mas também não é plena verdade, ao menos aos que ainda tem um certo saudosismo de cartas, cartões-postais, jornal em mãos, quem gosta de ver o mundo com os próprios olhos, quem gosta de conhecer pessoas, ouvir, ver, sentir. A saudade aperta mais quando é física, de ser e estar, de pessoas e de lugares especiais.

O fato é que sinto muita falta de coisas que são mesmo minhas, e que a cada vez que me cutucam o coração fazem ter a certeza de que volto. Pensei até em fazer uma lista, na qual colocaria afazeres urgentes quando voltar ao Brasil. Simbolicamente ela se materializa em minha mente, mesmo porque estas faltas não me deixarão esquecê-las... Tenho andado muito e conhecido os maiores, mais modernos e melhores estádios de futebol do mundo. Mas sinto saudade mesmo do histórico e simbólico Pacaembu. Lugar onde me sinto em casa, onde fiz o trabalho "profissional"que até hoje mais me realizou e, mais que isso, em que sinto a verdadeira paixão pelo futebol, onde a diferenças sociais, raciais e de todo gênero somem numa multidão enlouquecida na arquibancada, no abraço em um irmão momentâneo e unido à ti pelo mesmo amor. Ou simplesmente assistir ao jogo ao lado de pessoas queridas em casa mesmo, com amigos, com o irmão de sangue, com quem se pode comentar, desabafar, comemorar o gol. A música também é companhia e um pedacinho de lá aqui. Porém, faz falta ir ao samba, regado a boa caipiroska, com amigos queridos, dançar e suar, deixar que a música lave plenamente sua alma. Todo domingo quando acordo bate saudades do jornal brasileiro. Acordar, pegar minha grande caneca de café e sentar no sofá com o jornal em mãos e ler calmamente notícias, artigos, colunas, saborear palavras (e mentalmente também avaliar o produto, isso é uma mania de muitos jornalistas, tenho certeza). O cheiro, a textura, a tinta nas mãos, é minha profissão, minha paixão materializada. Ah e junto a isso o cheiro e sabor do café feito pela minha mãe, hum! Nestas manhãs, em que geralmente o dia está nublado no Porto, imagino aquelas manhãs quentes brasileiras em que se acorda, paradoxalmente, com o fresco do nascer do dia. Nunca pensei, mas a verdade é que até o calor brasileiro me faz falta... o humano e o desumano, que sempre me fez derreter e reclamar!

Estes dias estou com uma vontade insuportável de ser jornalista. Sim, eu sou, mas digo no sentido de atuar, de fazer jornalismo, de praticar a profissão que tanto amo e que escolhi pra mim. Ouço rádio pela web, mas sempre adorei os de pilha, com as antenas, de toda a magia e a técnica que o veículo exige. Queria fazê-lo. Simplesmente me deu vontade de escrever, de entrevistar, de ouvir gente, histórias, transcrevê-las artisticamente como quem costura retalhos e faz uma bela colcha. É assim produzir textos jornalísticos, numa visão, minimamente, apaixonada. As cidades em que morei. Não é de hoje que sou andarilha, quase de profissão. Cada lugar destes tem um espacinho muito especial em meu coração, em minha memória, estas urbes são representativas, cada qual a seu modo, cada qual à uma fase importante de minha vida. Penso em ruas, lugares, hábitos, caminhos. Tenho vontade de abraça-las! Assim como as pessoas. Com as quais convivia todo dia, o dia todo, as que via aos finais de semana, as que via raramente, as que não via, mas todas que de algum modo também tem um pedacinho representativo neste grande coração, onde sempre cabe mais alguém, mais uma cidade, mais uma saudade.

2 comentários:

  1. Minha incógnita e cigana amiga:
    A saudade é uma virtude daqueles que se entregam à realidade, absorvendo a vida em sua essência sem medo.
    A simplicidade é o banquete daqueles que sentem e demonstram esse sentimento com sinceridade.
    A circunstância é imposta pela maior professora do mundo... a vida.
    E você, minha amada amiga de um único encontro e cumprimento corrido de estúdio, mas que tem parentesco de paixão por um time, e admiração plena por ter descrito fatos resumidos em um tcc que pode ser chamado de evangélio da história corintiana em seu habitat natural, com certeza está abosrvendo o que de mais valioso o ser humano pode conquistar...
    Experiência!
    Tomara que um dia, você possa comemorar um gol decisivo no Pacaembú, virando pro lado e me abraçando com alegria!
    Torço por isso como torço pelo todo poderoso timão!
    bjs

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  2. Mana querida!!! imagina se não estou chorando agora ao ler seu texto... quanta falta vc faz... mas olha viva aqueles que inventaram a internet, a webcam porque falar contigo, ouvir sua risada e ver sua cara a respeito das patifarias já valeu muito.

    Em relação a profissão de escriba... inventa a roda aí mana... vai registrando tudo e todos, assim como faz aqui no blog, afinal, jornalismo é isso também.

    A gente tem muito orgulho de vc por aqui!!! Amo demais você... voa borboleta, voa... bjus

    Rô Accardo

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