quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

A origem


Refiz o caminho feito acerca de 100 anos atrás por meu avô. Ainda criança, em 1919,Ramon Peres deixava Malpartida, um povoado pertencente a província de Salamanca, acompanhado dos pais e duas irmãs menores. O destino era o Brasil, em meio a tantos imigrantes europeus que seguiam a mesma rota levando consigo nada mais que esperança. Ele nunca mais voltou à terra natal, mesmo depois de velho teve oportunidade, mas por motivos que só seu íntimo e seu psicológico sabiam (e ficaram para sempre apenas para ele estes sentimentos) Ramon não quis rever o lugar onde viveu seus dez primeiros anos de vida.

Em condições bem diferentes, por motivos de uma esperança muito mais feliz fui conhecer Salamanca. No caminho, mesmo em uma viagem de seis horas não consegui dormir. Viagens são sempre excitantes, com um sentimento quase infantil quero sempre chegar logo. Mas o fato é que fui pensando, como já fiz outras vezes, nestas viagens que imigrantes faziam ao Brasil, entre eles meu avô. Meses em um navio lotado, pessoas das mais diversas, condições das mais adversas, incertezas, medo... Mesmo para uma criança de dez anos como o pequeno Ramon, aquela experiência devia ficar guardada de modo realista e sem cores na memória, sempre viva. Talvez por isso regressar seria colocar o dedo em uma funda ferida, mesmo que já cicatrizada, mesmo que as condições fossem de um imigrante que batalhou muito, construiu uma família e a proveu de tudo o que foi necessário para conforto, sobrevivência e educação. Essa última ele só teve a da vida. Mesmo voltando em um avião, em "algumas" confortáveis horas de vôo, seria voltar a um passado a ser esquecido, mas que nunca pode ser apagado, trata-se da história e origem.

E foi com o sentimento de quem volta às reais origens que fui à Salamanca. Com o sentimento espanhol mais aflorado que nunca, com o sangue vermelho "furioso"correndo nas veias, com o passaporte e nacionalidade herdadas do avô como comprovantes dessas origens tão fortes e presentes em mim. Características físicas, comportamentais, dupla nacionalidade, um sentimento de carinho pelas origens. Meu registro como espanhola também é em Salamanca, é, de modo simplista e grosseiro, como se eu fosse nascida ali para o governo da Espanha. Fui com entusiasmo e com meu avô na memória. Pesquisei em alguns órgãos públicos da cidade algum registro, documentos, como chegar em Malpartida, alguma coisa que me colocasse ainda mais perto - ao menos de um modo físico, ou simbólico - de minha origem. Infelizmente estive na cidade poucos dias, era preciso uma investigação mais aprofundada. Porém, vivi o sentimento de estar ainda mais fundo em minhas raízes. Ficava me questionando e imaginando como viviam, o que passaram, será que moraram em casas como as que vi, andavam em ruas como as que andei, será que meu avô-menino corria por praças e no meio de grandes construções tão antigas e imponentes quanto as que conheci., será que estiveram efetivamente em Salamanca, de onde saíram até chegar no navio para o Brasil, como decidiram enfim embarcar para a América, entre tantas outras coisas... Valeu não só por conhecer mais um bela e histórica cidade da Europa, por enriquecer a cultura, mas também e principalmente pela fantasia e pelo resgate - mesmo que apenas sentimental - do que sou, do que me formou, de onde vim, do que forma meu DNA e minha história, o mais bonito de nós que podemos preservar e escrever.

Foto: Torres da Catedral de Salamanca (vista da terraça)

5 comentários:

  1. Muito lindo isso!!
    Também tenho esse desejo!
    bjs

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  2. minha querida voce passou para mim toda emoção que sentiu ao chegar na terra do seu avô....voce descreveu exatamente o que ele teria pensado ao não querer mais regressar a sua terra natal.....para mim voce é demais.....te amo.....beijos da sua mãe que muito te admira

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  3. Glaucinha
    Fiquei comovida com o que você nos conta sob sua ida à Salamanca.Acontece que eu também sou neta de imigrantes espanhóis e um dia busquei minhas raízes em um ¨pueblo¨de Espanha.
    O que você escreveu, é maravilhoso denota a jornalista inteligente e a psicologa inata.


    Um beijo da sua ¨vó¨
    CYRMA

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  4. amigaaaaaaaaaaaa lindo post :)
    adoro essa ansiedade de viagem, de não conseguir dormir e ficar imaginando o que está por vir!
    SAUDADESSSSSSSSSSSSSS
    AH, tou de blog novo, já viu?
    http://www.pormarestropicais.blogspot.com/
    Fabi

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  5. Glau,
    isso é talvez,a cho eu, uma das coisas mais importantes no processo de e reconhecer enquanto pesso. Buscar o que ecoa de seus ancestrais em você, já que você faz parte de uma história inciada por eles. E com certeza, o que eles foram e fizeram est´em você de alguma maneira, nem que seja num jeito de olhar ou falar.Tenho pensado muito niso nesses dias. Fico muto feliz pela sua experiência.
    torcendo aqui, sempre, e saudades.

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