sábado, 16 de janeiro de 2010

Chuteiras da humildade


A Copa São Paulo de Futebol Junior é a maior competição de categoria de base, sub-18, do futebol brasileiro. Ao menos em quantidade. O torneio conta, inicialmente, com 92 equipes de todo o Brasil. Multiplique isso por vinte, uma média (talvez alta?) de jogadores por time, teremos aí cerca de 1840 atletas, garotos que sonham vingar no futebol, almejam fama, dinheiro, contratos milionários, o exterior e tudo mais que craques privilegiados da bola têm. Todo ano me pergunto: "quantos destes quase dois mil meninos vingarão, de fato, no futebol?". Pouquíssimos, dentro de um universo tão grande e que se renova a cada temporada. Sim, a Copinha já revelou grandes jogadores, grandes ídolos do futebol nacional e internacional, mas todos hão de concordar que é uma porcentagem pequena dentro de um universo tão grande de nomes, talentos, sonhos, promessas, frustrações, empresários, clubes etc etc etc.

Sem entrar no mérito do talento deste ou daquele, no investimento sério desta ou daquela agremiação na formações profissional destes meninos, quero ressaltar um aspecto, muito falado no discurso quase paterno de técnicos, mas que, na prática, em especial este ano, não tenho visto: "é preciso trabalhar a cabeça destes atletas!". Chega a ser bonito ouvir isso, parece uma preocupação humana em meio a uma disputa desumana por espaço, por sobrevivência, por vingar na carreira no meio de tantos. Mas é só discurso. Não me lembro de ter visto tantos meninos tão "mascarados" como na edição 2010 da Copa São Paulo. E não é privilégio de um ou de outro time, eles estão espalhados por toda a competição. Chuteiras coloridas, quase espaciais de tanta tecnologia; cabelos dos mais diversos; dribles desnecessários e sem objetivo; outro faz um passe simples de meio metro, e após a bola ter saído do seu pé olha para o companheiro do lado oposto ao passe, como se fizesse aquela jogada clássica - mas para quem pode - de olhar para um lado e tocar para o outro, enganando assim o adversário; outros pedem a participação da torcida o tempo todo, numa demonstração de raça e entusiasmo não refletidos na bola; entrevista para a imprensa com pose, "o professor" e "vamos trabalhar" e tantos outros termos chavões recorrentes em entrevistas de jogadores de futebol.

Calma! Cadê a humildade? Cadê as tradicionais chuteiras pretas surradas, os cabelos ruins que foram raspados, o menino franzino que joga futebol com a mesma espontaneidade com que respira, o choro infantil e sincero do derrotado, o brilho nos olhos de quem joga por que ama jogar? Cadê o futebol, antes de qualquer coisa, o que irá mantê-los vivos não só na competição, mas no mercado? E cadê o "trabalho com a cabeça dos atletas"? Os jogos muitas vezes são sofríveis, times de baixo nível técnico, mas os meninos estão lá, com chuteiras, cabelos, discursos, pose de grande estrela e na verdade não são ninguém ainda (e mesmo que fossem, nada justifica a falta de humildade, mas...).

Jogar no Corinthians, no São Paulo, no Fluminense, no Flamengo, seja lá em que grande time junior é, de fato, um grande passo, um grande mérito, mas ainda não é tudo. É preciso ralar muito ainda. Quantos não chegam ao profissional destes clubes e com a mesma facilidade e rapidez saem, se perdem por aí em um clube menor e o sonho todo se foi, para quem um dia estava tão perto do auge. E o que chamou atenção da imprensa, li várias coisas sobre, foi o goleiro do Botafogo (RJ), Luiz Guilherme que, após defender dois pênaltis contra o São Carlos e levar seu clube às oitavas de final da competição falou humildemente como quem apenas cumpriu com a obrigação. Virou exceção ao que deveria ser regra. Com essa marra e com o pouco futebol que tenho acompanhado dessa Copinha, poucos desta vez chegam lá. Ao menos, aos que vingarem, a pose e a marra já vêm da base! Chuteiras da humildade para vocês!

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