quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

O espelho da alma


Dizem que a solidão inspira poetas e escritores em geral. Deve ser pelo fato de a solidão levar à introspecção, um momento de total descoberta do que sou, de quem fui e do que quero ser. Sim, isso é algo em constante mudança em nós. Ou ao menos deveria ser... para mim, eu sou uma ebulição de sentimentos e sentidos o tempo todo. E nada como estar apenas consigo para tentar compreender melhor isso tudo, esse complexo emaranhado de coisas que juntas formam o "eu". Longe de ser Clarice Lispector, uma das maiores introspectas da alma , principalmente a feminina, reflito a existência, a minha e a de tantos e de tantas coisas.

Já se foram dois meses e meio longe de lugares, gente, hábitos, costumes, multidão. Ao contrário, estou eu flutuando no mundo com a sensação de não há ninguém em quem me escorar. Nunca liguei em passear e fazer atividades cotidianas sozinha. Mas havia sempre alguém conhecido por perto. Aqui não tenho escolha, sou eu e eu mesma. Não há a opção de ir sozinha ou convidar alguém para ir. Ou vou sozinha ou vou sozinha, sem escolha. Não acho ruim, é uma questão de habituar-se. Porém, confesso que em algumas horas sente-se saudades físicas das pessoas, dos lugares, das lembranças, dos momentos, dos cheiros, dos sabores... E o exercício de auto-conhecimento passa a ser diário.

E são estes momentos sozinhas que me fazem mergulhar de olhos fechados e peito aberto em mim mesma. Minhas ânsias, meus desejos, minhas fraquezas, minhas forças, meus medos, minha coragem, minhas alegrias, minhas tristezas, minhas conquistas, minhas frustrações, meus amores, meus horrores, meu amadurecimento, meu crescimento, a criança frágil que ainda mora em mim. E quando estou nesse processo meu sentimentalismo aflora. Ouço e degusto clássicos da música brasileira, Chico, Vinícius, Bethânia, Roberto Carlos, entre outros. Considero meu momento Chico Buarque (embora todos estes outros estejam na lista do som, Chico encabeça). É um exercício interessante e importante, como se olhasse um espelho, mas o espelho da alma. Choro, riso, vontades, saudades, ânsiedades, eis sua vida não materializada, mas sim sentimentalizada em si. Apenas sozinhos podemos fazer isso! E nada como passar horas, uns dias, momentos, sozinho ouvindo o que se tem a dizer pra si.

Não há conclusões, nem sim, nem não, nem certo, nem errado, há apenas o ser humano humano que cada um de fato é. Conosco não há máscaras, mentiras, segredos, não se pode omitir nada de si. Você encontra as coisas que mais ama, as pessoas que mais ama, do que mais sente falta de fazer, o lugar onde gosta de estar, as músicas que encantam, tudo que lhe é pertinente e, peça por peça, monta seu delicado quebra-cabeças. Mais interessante que ver a imagem formada, o que somos, é encontrar sempre algumas peças enraizadas, o que nunca deixaremos de ser.

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