sexta-feira, 30 de outubro de 2009

O diário da Europa é aberto


Depois de duas semanas em Portugal, começo a me sentir na Europa. Ao menos no que diz respeito ao clima. Foram quinze dias de um calor brasileiro, sol de arder, temperaturas na casa dos 30 graus, casacos guardados no fundo das malas. Pode ser pela língua, por esse clima atípico para o outono europeu, não sei explicar, mas não senti um grande impacto ao chegar a Porto. Algumas palavras trocadas, algumas confusões linguísticas e de comunicação, o cansaço das dez horas de voo apertadas para minhas pernas, me senti acolhida… mas cá estou em Portugal, e o sotaque e o nome do primeiro taxista não me deixaram esquecer disso: o receptivo Joaquim, foi quem nos deu as primeiras impressões da cidade, do país e até mesmo uma das visões do Brasil por aqui. São coisas paradoxais em alguns momentos. Para muitos somos mesmo irmãos, conversar, servir, ajudar a um brasileiro torna-se uma grande atração, tudo de nós faz graça ou simpatia. Outros, infelizmente nos têm do modo triste, bandido e pobre que os noticiários mostram aqui. As novelas são nosso maior cartão de apresentação, explicam nosso “português brasileiro”, nossa moda, nossos costumes, já tudo familiar a eles. Há a novela da tarde, das 20 horas, das 22, das 23 e por aí vai. Mas o lamentável mesmo, ao menos para mim, enquanto jornalista, como profissional da comunicação, cidadã no geral, é ver os programas brasileiros retransmitidos por aqui: pessoas fazendo bizarrices nos palcos dos dominicais, a notícia que corre o mundo, é a do confronto de favelas, e as moças bonitas da novela são logo esquecidas em detrimento da criminalidade e da pobreza intelectual. Cabe aos que aqui estão mudar este estereótipo, e fazer com que o outro seja predominante.

Fora essa impressão, vi, primeiramente, Porto como uma grande cidade, ampla, organizada e calma, muito calma para seus 215 mil habitantes. Agora, já mais acostumada, vejo apenas o movimento como ordenado, nada como a loucura paulistana, que, por outro lado, pode ser comparada à Lisboa, já mais metropolitana, com diversidade cultural e racial visíveis em uma breve passagem no final de semana. Enquanto procurava um lugar para morar, andava mos como loucas ( quando digo no plural me refiro a mim e minha mãe, minha companheira de viagem e de Porto nesse primeiro mês) pela cidade desconhecida: a pé, de metro (modernos, bonitos e funcionais), pergunta pra um, pergunta pra outro, mapa na mão, e assim descobria as misturas e diferenças da urbe portuense. Sim, há pobreza, casinhas humildes, gente a pedir, gente de aspecto simples, espaços antigos que se escondem em meio a modernidade e grandeza de tudo que é novo. Embora sempre tivesse visto a Europa desse modo, como uma grande mistura do antigo, dos primórdios, com o que há de mais moderno, às vezes me esquecia de que a organização social é sempre estabelecida por posses, deve haver o pobre para haver o rico e por aí vai, é do mundo e de todas as sociedades. Porto é sim bela, a parte da praia, do rio douro, o lado de Gaia, o estádio do Dragão, a região da Boa Vista (na qual estudo). Ruas estreitas, ruas largas, casas novas, casas antigas, gente nova, muita gente já não tão nova assim, gente bonita. E a constante impressão de que estamos na Torre de Babel. Línguas e mais línguas do mundo todo, a todo instante. Vez ou outra é preciso arriscar o esquecido inglês para estabelecer contatos, ou ainda afinar os ouvidos, 24 horas por dia, para compreender mesmo o português… tem horas que parece grego! Ah as palavras… adquirem múltiplos sentidos, são usadas aqui mas não aí e vice versa, penso até em fazer um dicionário. Um dicionário futebolístico é certeza. Aqui empata-se por uma bola (um a um) ou ganha-se por duas bolas a uma de diferença (dois a um), o gramado é a relva, os torcedores os adeptos, o guarda-redes fica sob as balizas ( o goleiro sob as traves) e por aí vai.

E por falar em futebol, sentia uma imensa necessidade em ver manifestações futebolísticas pelas ruas. Demorei a vê-las, é verdade. Joaquim, o taxista, contou-nos que, Felipão, quando técnico da seleção portuguesa, foi quem trouxe ao país o hábito de colocar bandeiras nas janelas em sinal de amor ao país e seu futebol. No dia da chegada, uma quarta-feira, um jogo pelas eliminatórias da Copa. Os jornais não falavam de outra coisa e, apenas para constar, a imprensa esportiva é especulativa e igual seja no Brasil, seja aqui, seja onde for, penso eu. Vitória, como era preciso, mas nada de mais. Será que não empolga mais a seleção? Pouco ligam para futebol? Eis que me vejo em Lisboa, no sábado, diante do estádio da Luz em dia de jogo para a Copa, importante e decisivo…sem querer, estava no shopping ao lado do campo. Ali sim! Bandeiras, camisas, gente ansiosa para o jogo…Ah o bom e velho futebol. Torço pela classificação portuguesa, afinal estarei aqui na Copa, quero estar nesse ambiente. O grande ídolo, como sabemos do Brasil, é Cristiano Ronaldo: ele movimenta milhões, faz a propagando do banco, do shampoo, vende camisas, arrasta multidões, é mote de 9 em dez matérias do noticiário esportivo. Jogue bem ou jogue mal, não jogue, é dele que falam. Porém, os brasileiros naturalizados portugueses também são ídolos no país: Deco, Pepe, Liedson, este último sendo já indispensável e decisivo para Portugal, cada vez mais estimado por aqui. Infelizmente não entrei naquela partida, mas ao menos comecei a ver a manifestação futebolística, que seguiu depois em visita ao estádio do Dragão, do F C Porto, em ver pelas ruas torcedores do Apoel, adversário do Porto em partida pela Champions espalhados aos montes pela cidade no dia do jogo, bem como os torcedores locais. Aí a língua é universal. Hei de cumprir o que prometi a mim mesma, seguir o futebol pelo mundo, suas manifestações, o quanto puder. Mas o time do Porto é queridíssimo, há sim cachecóis do clube pendurados às janelas, há vários brasileiros na equipe, assim como na cidade. Há sempre algum trabalhando aqui ou acolá, sempre ouve-se “nosso”português, ao sair com a camisa do Corinthians, impreterivelmente, alguém grita pelo caminho “ae curintia!”. Por falar nele, saudades já...

E agora, como dizia, o frio Europeu, pelo qual já esperava desde que sai do Brasil há quinze dias, parece querer dar as caras. Em 24 horas, a cidade passa por tudo: chove, abre um lindo sol, nubla, esquenta, esfria, venta. Mas, em síntese, agora, a temperatura já fica na casa dos 20 graus, com vento úmido que aumenta a sensação de frio, fora a chuva também gélida. Agora também já tenho um teto. Depois de tanto andar, visitar “n”apartamentos, alguns dos quais pareciam ter sido habitados por D. Pedro I, achei meu canto. Ainda falta internet e antena para a TV. Ao mesmo tempo em que penso “como essas modernidades fazem falta”, e fazem muita, e me questiono “como vivíamos sem tudo isso?”, retomo os primórdios e aproveito o rádio: nele ouço as notícias, o futebol (é sempre bom, futebol no velho radinho...), as músicas locais e também brasileiras, sempre um sucesso aqui. Tudo pode ter evoluído, mas rádio continua a caixinha mágica da comunicação. Aproveito ainda para ver e rever o mapa da cidade, os caminhos dos trens (comboios aqui) para outras cidades, o percurso do metro, planejo o passeio do dia seguinte; vejo as fotos que registram as impressões que agora escrevo e muito mais, já que imagens dizem mais que palavras, faço esses relatos. E aos poucos me organizo, reestruturo para cá passar os próximos doze meses de minha vida.

ps: este texto foi escrito três dias antes da data da postagem... nestes dias o sol e o calor voltaram, o suor e a marca do óculos no rosto...o clima está mesmo mudado no mundo todo! Aqui também comentam isso, sentem falta do atrasado frio de verdade.

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