sexta-feira, 10 de abril de 2009

O prazeroso ato de fazer xixi e a história do super-herói

Entrar em casa correndo para fazer xixi ou estar em algum lugar apertado e incomodado, sem saber como agir diante da vontade de urinar. O elevador demora horas, mesmo que você more no primeiro andar; a chave da porta não entra e não gira; você joga a bolsa e todas as coisas de sua mão sobre a mesa; há gente no caminho; e quanto mais perto se está do banheiro pior fica e aí você pensa "não vai dar tempo, não vai dar tempo...", já suando frio e desabotoando as calças. Ah! o alívio de fazer xixi, chega a ser algo prazeroso. Quem nunca passou por essa situação? É algo extremamente comum e corriqueiro a todos nós, mas talvez nem percebamos todas estas atitudes e o "grande final".

O caro leitor deve estar se perguntando porque de toda esta história do ato de fazer xixi, do aperto, do prazer. Explico! Muitas vezes nesta situação ficamos tensos, reclamamos do desespero gerado pelo momento, o xixi parece um grande trabalho. Desconsidere estes pensamentos e reflita comigo: você já pensou se não pudesse simplesmente urinar, se seu corpo não funcionasse bem e esse ato não lhe pertencesse? Difícil hem!? Comecei a pensar isso motivada pelos meus quase doze meses de trabalho no Hospital de Clínicas da Unicamp. Dentre muitas coisas, uma das mais comuns são pessoas com problemas renais. Salas de hemodiálise lotadas, fila de transplante por um rim cada vez maior, pessoas fazendo diálise, adultos, crianças, todos privados de simplesmente fazer xixi.

Quando comecei a pensar que reclamava de passar estes apertos, ou de ter que urinar praticamente em pé em bares e banheiros públicos, me senti uma pessoas mesquinha e pequena. Aquelas pessoas que não tem este privilégio passam, geralmente, três vezes por semana, quatro horas por dia, presas à uma máquina de hemodíálise, para que o sangue seja filtrado e a função dos riuns doentes seja feita. E não há feriado, final de semana, dia santo, a saúde não espera, é preciso ir ao hospital e passar pelo tratamento invariavelmente. Além disso, ainda esperam em uma longa fila por um rim que pode devolve-las o direito de ir ao banheiro urinar. Já pensou? Nem quero pensar. Uma simples infecção de urina já me fez dimensionar o que é não ter plena saúde para tal. Dores para conseguir expelir gotas que mais parecem areia com fogo, uma concentração imensa para encontrar no cérebro que área do seu corpo coordena esta função, não é possível simplesmente sentar e colocar para fora de uma vez todo o líquido acumulado em sua bexiga.

E em meio a todas estas pessoas via crinaças, de seis, sete, oito anos de idade presas às máquinas de hemodiálise, ou com sacos de diálise pendurados em seus leitos e ,pior, precisando de um transplante de rim. É cruel! Várias vezes chorei ao retornar da pediatria após ver cenas assim. Blasfemei comigo mesma e vi como o mundo é injusto e duro. Aqueles pequenos são anjos, todos inchados e precisando de tratamento. Desde então, acho lindo o fato de poder entrar em casa correndo, jogar tudo no chão entrar com as calças na mão, sentar e urinar. Rio, rio da saúde, rio de alívio, rio pelos simples e maravilhoso fato de fazer xixi.

*** Super-herói***

Acompanhei um pouco a história de um destes pequenos anjos. Meio sem querer fui sabendo, passo a passo, do tratamento da linda Júlia de 6 anos. Um dia fui à Enfermaria de Pediatria para cobrir umas entrega de televisores. As crianças pintavam no pátio com os voluntários e palhaços que as fazem companhia nas longas e duras tardes de hospital. Júlia veio correndo em minha direção com um desenho na mão, ela mesmo havia colorido a figura da princesa. "Tia, tia olha o que fiz!". Perguntei para a pedagoga qual era o problema da pequena, e ela me disse que Júlia estava esperando por um transplante de rim, assim como tantos outros que passavam por nós. E a menina não parava de correr, conversava com todos, comigo, com os amiguinhos, era iluminada, alegre e espontânea como a maioria das crianças. Fui embora dali com Júlia na cabeça.

Algumas semanas depois voltei à pediatria para cobrir a festa de Dia das Crianças. Não a vi por lá. Mais uma vez indaguei a pedagoga que, feliz, me contou que Júlia passava pela cirurgia de transplante naquele momento. Nada seria melhor presente para aquela criança naquele dia. Senti-me leve e feliz com a notícia, mais uma vez passei o dia a pensar positivo para a menina. Dali alguns dias estava eu novamente na ala das crinaças no hospital e uma menina vem correndo ao meu encontro. Não a reconheci de pronto, estava de máscara cirúrgica, aventalzinho branco, os longos cabelos que balançavam sempre estavam presos. Era Júlia! Não via seus lábios e seu sorriso habitual devido a máscara. Via seu sorriso através de seus olhos castanhos e grandes. Comecei a conversar com ela, um papo talvez surrel, mas que me fez guardar daquela menina uma imagem linda e forte.
- Oi Júlia tudo bem?
- Tudo...
- E essa máscara aí hem?! Não sabia que você era como um super-herói. Eles que usam máscaras não é?
- Não eu não sou, tenho que usar a máscara para não ficar doente.
- Júlia eu já vi você aqui outras vezes, sei que está melhor agora...prometo guardar segredo sobre você ser como um super-herói tá?!
Ela apenas concordou com a cabeça, sorriu de satisfação com os olhos e saiu correndo. Uma verdadeira heroína. Só faltou sua capa tremular com o vento.

4 comentários:

  1. Um vez, depois de assistir a uma peça e o protagonista encenar um campo de batalha e depois sua casa, e explanar sobre o fato de poder sentar no seu próprio vaso sanitário, eu fiquei a refletir sobre isso. Não sobre a felicidade de fazer xixi em si, mas do fato de poder fazê-lo, com tranquilidade, em sua casa e ter toda a higiene e saneamento básico possível para isso.
    Muitas coisas pequenas do cotidiano a gente só valoriza quando dói, perde, arde, queima, falta, não tem, não acontece, não vê...
    Estava assim com meu pescoço. Nunca o valorizei tanto como semanas atrás, quando pensada 3x em que forma iria levantar da cama, no impulso, sem sentir dor.
    Sobre a pequerruxa heroina, com certeza ela era a maior fortaleza, dentro ou fora dos quadrinhos da própria imaginação.

    Ai, como eu falei....
    falandocomasparede!
    Ai a convivência!!!!!

    beijos

    ResponderExcluir
  2. ILUMINADOS são aqueles com sensibilidade como a tua.
    Que conseguem absorver lições de vida de situações onde a maioria das pessoas hoje em dia preferem fazer de conta que não existem.
    Ahhhh crianças... Anjos a serviço de uma força tão maior que o universo. Comigo já aconteceu várias vezes. Tomar um chacoalhão desses, quando a gente reclama de coisas tão mesquinhas e dali a pouco nos mostram o que é um problema de verdade na pele de uma criança que apesar de tudo continua sorrindo, sem reclamar.

    Adorei o texto, como sempre.
    Bjs
    PS: Viu que os porcos nunca foram favoritos!!?!
    Hj é a gente contra as meninas saltitantes... 2 do R9 e 1 do Dentinho.

    ResponderExcluir
  3. belo texto, Gláucia! Sei bem o que é sofrer pelos rins, vítima das incontáveis cirurgias que quase me tiraram a vida! Além de areia com fogo, também urinei pedras que decorariam um aquário e até sangue. E de todo tempo que fiquei em hospital aprendi duas coisas: não como mais gelatina e dói mais do que uma cólica renal ver uma criança deitada em uma maca! Grande beijo

    ResponderExcluir
  4. É futebol, é vida, é o que for.
    Você escreve, hein, fia?
    Lindo texto. Lindo!
    Um beijo!

    ResponderExcluir