quarta-feira, 1 de abril de 2009

O curioso convite à reflexão

Há umas duas semanas fui ao cinema, assistir ao filme "O curioso caso de Benjamin Button". Motivada não só pelo elenco, que conta com Brad Pitt, e pelos prêmios ganhos pelo filme, o enredo e as indicações de outras pessoas também me fizeram assistir a película.

O filme, a quem o assiste desprovido de compromisso, como um simples passa tempo é apenas um caso curioso, de um menino que nasce velho, com características de um idoso, porém, conforme vai ganhando idade, ele vai rejuvenescendo. É, a primeira vista, e dito assim, uma história maluca, e como o título diz, curiosa. Mas há muito por trás deste personagem, de sua vida, desta intrigante história. Há mensagens de vida, reflexões acerca da existência humana, de valores.

Logo de cara o personagem principal é abandonado pelo pai por ser esquisito e feio... encontra uma mulher de bom coração que o adota, sem se importar com sua aparência e doenças precocemente senis apresentadas pelo bebê. Há aí a rejeição e preconceito, contra a aceitação do ser como ele é. Bejamim cresce em uma casa de repouso para idosos, da qual a mãe adotiva é uma espécie de coordenadora. O "menino"era como todos os demais moradores fisicamente, catarata, artroses, dificuldades de locomoção, mas sua mente reagia em muitos momentos como de uma criança que, pela idade, ele o era. Encarava com naturalidade a velhice, a morte, a vida sem agitos e rotineira imposta aos idosos. Respeito aos mais velhos, aos que tinham uma longa história de vida.

A parte mais marcante de filme é quando Benjamim decide sair de casa, em torno dos vinte e poucos anos de idade. Vai trabalhar como marinheiro, conhecer o mundo. Quando retorna a casa, entende a síntese da vida, de como mudamos conforme amadurecemos, não fisicamente, mas mental, intelectual e psicológicamente. Ele diz que o que muda somos nós e não as coisas... e tampouco as pessoas que permanecem no mesmo lugar, no mesmo mundo, na mesma vida.

O enredo segue, com o envelhecimento e o rejuvenecimento de Benjamim acontecendo ao mesmo tempo. Benjamim é o que todos um dia já pensamos ser, hoje com a cabeça de amanhã. Mas isso é impossível. O amadurecimento vem com as frustrações, com os tropeços, com a vivência. O corpo precisa andar em parceria com a cabeça... impossível, como bem mostrou o personagem em questão, termos a cabeça de uma pessoa de 50 anos, com o corpo de 20. É como se nosso próprio organismo tivesse instintos diferentes e condizentes com a idade, ele tem a disposição que precisa ter conforme nossa cabeça.

Ah! as mudanças... ver quem ficou para trás, quem não saiu de sua raiz, quem permaneceu ali, apenas a espera de nosso breve retorno. Elas podem não mudar, o lugar e a rotina também não, mas para quem vai e depois volta, a mudança interna é imensa e intensa. Uma vez arrancadas as raízes elas não fincam mais naquele mesmo chão. Voltar à casa e ao seio em que nasceu despois que se foi não é mais a mesma coisa... é como se você fosse hóspede numa casa que um dia foi sua, os assuntos, seus pensamentos, suas necessidades, seus hábitos, sua rotina, não são mais os mesmos daquelas pessoas que ali ficaram.

A morte é o final da vida, e em geral é um final guardado para os idosos e triste para quem fica. Por mais que saibamos que esse é nosso fim, é difícil encarar com naturalidade que as pessoas se vão para nunca mais, e pior, que jovens morram, este não é o natural. Benjamim morre um lindo bebê, mas idoso... A vida sabe o que é certo e correto a ela. Se fossemos maduros quando crianças, não teríamos a inocência que faz delas tão simples e felizes por serem simplesmente crianças, sem preocupações maiores. Se fossemos maduros quando jovens, não erraríamos tanto, não aproveitaríamos tanto, não seríamos tão felizes simplesmente por ter a vitalidade da juventude, por nos divertirmos com tudo e com pouco, por curtir a vida como ela se oferece para nós. Se fossemos inocentes e imaturos quando adultos não sobreviveríamos ao mundo selvagem e cruel que o próprio ser humano monta. O caso de Benjamim é mais que curioso, é reflexivo, e nos faz pensar simplismente no que é a vida.

6 comentários:

  1. Este filme foi inspirado em um conto do Fitzgerald e, se não me engano, Charles Chaplin tinha um poema em que ele invertia a ordem natural e encerrava dizendo que a vida deveria terminar com "um orgasmo". É legal de se imaginar, mas concordo com o que você disse: perderíamos o melhor da vida!
    Beijos, adoro este blog!

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  2. Outra coisa...na primeira fase da vida o Brad Pitt não está a cara do Zagalo? Deveria se chamar: "O curioso caso de Zagalo Button". E a frase de Brad Pitt ao fim do filme trocada: "Vocêeeees vão ter que me engoliiir" rsrsrsrs

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  3. Chega uma hora que a gente não cabe mais.


    beijos querida,

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  4. Neto, o Chaplin escreveu sobre isso sim:

    "A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso.

    Daí viver num asilo, até ser chutado pra fora de lá por estar muito novo. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então você trabalha 40 anos até ficar novo o bastante pra poder aproveitar sua aposentadoria. Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara para a faculdade.

    Você vai para colégio, tem várias namoradas, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta pro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando. E termina tudo com um ótimo orgasmo! Não seria perfeito?"

    Adoro esse pensamento.

    abraxx

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  5. Isso, Paulo! Era este texto mesmo que eu tinha lido certa vez. Muito bonito, apesar de utópico! Sob a ótica visionária e sonhadora do homem que criou Carlitos, seria lindo, mas realmente é inviável, né?! Valeu por ter postado o texto! Abraços

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  6. Glaucinha!!
    Finalmente entrei no seu blog! Amei queridaaa! Já virei fã!
    Muito poético esse filme, adorei tb e a sua interpretação foi linda!
    Beijos mãe!

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